
Entrevista de Alexandra Lucas Coelho ao jornal Ágora
por Bruna Ribeiro e Lara Viana
“O que aconteceu em Gaza representa o maior colapso do jornalismo internacional”
Entre Gaza, Afeganistão, Líbano e Palestina, Alexandra Lucas Coelho fez da reportagem um modo de atravessar conflitos e compreender o ser humano nos seus extremos. Nesta entrevista, aborda o drama de Gaza e considera que o mundo falhou por não pressionar Israel a favor do jornalismo.
Como se apresentaria hoje: mais jornalista, mais escritora?
Continuo a ser jornalista isso não desaparece, tal como um médico nunca deixa de o ser. Mantenho a carteira profissional e volto à reportagem quando é preciso, como no Líbano e na Palestina depois de 7 de Outubro. Mas há vários anos que o meu trabalho principal são os livros: tenho romances em andamento e é nisso que concentro o meu tempo. Por isso, hoje sou sobretudo escritora, embora nunca deixe de ser jornalista.
Em que momento surge o interesse específico por cobrir conflitos?
O interesse não surgiu por decisão prévia. Sempre quis escrever livros e, por isso, estudei jornalismo, começando a trabalhar muito cedo. O jornalismo absorveu-me e fiz muitos anos de reportagem em várias áreas. As coisas foram acontecendo, por acaso. Um desses acasos foi a Palestina, que entrou na minha vida e acabou por despertar esse interesse específico pelos conflitos.
Qual foi o primeiro cenário de guerra que cobriu?
O meu primeiro cenário de guerra surgiu por acaso, em 2002. Ia para Alexandria fazer uma reportagem cultural, mas ao aterrar no Cairo o jornal pediu me para seguir para a Palestina, no auge da Segunda Intifada. Cheguei sem preparação e tive de escrever logo no próprio dia, aprendendo tudo muito depressa. Foi uma experiência intensa: criei laços fortes com o lugar e com as pessoas, ao ponto de mais tarde ir viver para Jerusalém como correspondente. A Palestina tornou se parte da minha vida e marcou também os meus livros.
Houve alguma experiência ou leitura determinante nessa escolha?
A Palestina levou me ao Líbano. Em 2006, enquanto preparava o meu primeiro livro sobre israelitas e palestinianos, senti que precisava de conhecer os palestinianos nos campos de refugiados libaneses. Fui ao Líbano por causa deles e acabei por criar também um laço forte com o país, ao ponto de voltar várias vezes e escrever um livro sobre o Líbano. Foi essa experiência que se tornou determinante. E moldou o meu percurso.
O que mais a marcou no contacto direto com a guerra?
Não consigo separar o perigo, as pessoas e a complexidade política. Está tudo ligado. O que me move é a vontade de entender: ouvir as pessoas, perceber o que vivem e o que está por detrás dos acontecimentos. Há também um laço afetivo com aqueles lugares, quase um amor que nasce da relação criada com eles. E existe o privilégio extraordinário do jornalismo: entrar na casa das pessoas, escutá las, aprender com elas. É isso que me marca a curiosidade, o envolvimento e o desejo de cuidar dessa relação com o lugar.
Alguma vez sentiu a vida em risco?
Houve momentos em vários países que senti a vida em risco. No Afeganistão, onde viajar sozinha era perigoso e ainda mais complexo por ser mulher. Em Gaza, debaixo de bombardeamentos, com obuses a cair à nossa frente; no Iraque em 2003. Em Ciudad Juárez, a cidade mais violenta do mundo. Muitas vezes a sobrevivência dependia de confiar nas pessoas certas, entrar no carro certo, entregar literalmente a vida às mãos de alguém sem saber se a decisão era a melhor. Nesses contextos, o corpo entra num estado de hipervigilância absoluta: estamos sempre alerta, porque cada gesto e cada escolha podem ser determinantes para nós e para os outros. É assim que se reage quando o perigo é real.
O medo transforma-se ao longo do tempo ou nunca desaparece?
O medo nunca desaparece, nem deve. É uma forma de respeito pelo lugar e pelas pessoas. A ausência total de medo seria ignorância. Por isso, é essencial preparar se, ter cautela e estar atento. Houve situações inesperadas, como quando fui desviada para a Palestina sem preparação, mas regra geral devemos conhecer minimamente o terreno. Morei também no Rio de Janeiro, uma cidade marcada por violência e guerra paralela. O medo existe, mas não pode paralisar. O medo transforma se em atenção, em vigilância e é isso que nos mantém vivos.
Qual é, para si, o papel de um jornalista em contexto de guerra?
O papel do jornalista é estar o mais perto possível das pessoas que vivem o conflito e dar visibilidade às histórias que estão a ser menos contadas. Não sigo tropas embora já tenha estado com soldados porque me interessa sobretudo perceber quem sofre mais e quais os pontos de vista que ficam de fora. Em 2023, quando voltei a Israel e Palestina, senti que a parte israelita já estava amplamente coberta, por isso concentrei me na Cisjordânia e em Gaza, onde faltava olhar. Para mim, a prioridade de um repórter é ir ao que está menos visto.
O que a levou a escrever livros como “Caderno Afegão” ou “Tahrir”?
O Caderno Afegão nasce da relação longa que criei com o Afeganistão. Em 2001, estive um mês na fronteira do Paquistão a tentar entrar no país após o 11 de Setembro. Não consegui e essa frustração fez me passar anos a ler tudo sobre o Afeganistão e a querer voltar. Quando finalmente consegui ir em 2008, já levava essa espera acumulada e decidi escrever um diário paralelo às reportagens. O livro resulta desse caderno, misturado com partes publicadas e inéditas. Tahrir nasceu do mesmo impulso de ligação a um lugar. Já tinha uma relação com o Egito e, quando começou a revolução, mesmo vivendo no Brasil, senti que precisava de estar lá. Fui por minha conta e registei as conversas, as noites na praça e a energia daquele momento único. O livro é uma forma simples de guardar essa memória. Escrever estes livros primeiro de não ficção e depois romances tornou se uma maneira de aprofundar o que vivi como repórter. Na não ficção mantenho o compromisso com a verdade; na ficção tenho liberdade total.
A escrita ajuda-a a processar emocionalmente aquilo que vive no terreno?
A escrita permite entender melhor, reviver e criar uma relação com aquilo que aconteceu. E, ao mesmo tempo, aquilo que escrevo alimenta novas viagens, que depois geram novos livros. É um ciclo contínuo. Cada livro leva me a novas experiências e essas experiências levam me de volta à escrita. Para mim, tudo está ligado.
O que é que o formato livro lhe permite fazer que o jornalismo diário não permite?
O livro dá me uma liberdade e uma profundidade que o jornalismo diário não permite. No jornalismo, o espaço é limitado e há um compromisso rígido com o que vi e ouvi. No livro, posso deixar que o trabalho cresça conforme precisa. Já comecei livros pensando que seriam pequenos e acabaram enormes. A escrita em livro permite, explorar mais fundo, reunir materiais, pensar melhor. É uma experiência totalmente diferente. O livro pode ter a extensão e a liberdade que a reportagem diária nunca tem.
BIO
Alexandra Lucas Coelho é jornalista desde 1987. Trabalhou 10 anos em rádio e 20 no jornal Público como repórter, cronista, editora e correspondente (em Jerusalém e no Rio de Janeiro). É escritora de romances, de não-ficção e publicações infanto-juvenis. Tem 15 livros publicados. Alguns títulos: Gaza Está em Toda a Parte, de 2025, Oriente Próximo, de 2024, Caderno Afegão, de 2021, Tahrir: os dias de revolução, de 2011, Vai, Brasil, de 2013. Ganhou dois prémios sendo eles o Conto ou Crônica de 2014 com o livro Viva o México e em 2022 o Prémio Oceanos com o livro Líbano, Labirinto. Neste momento, trabalha como freelancer e dedica-se mais a atividade literária. Atualmente está a trabalhar em 4 romances.
Há alguma pessoa ou história que a tenha marcado profundamente?
São muitas pessoas centenas, milhares e é impossível escolher apenas uma. Mas hoje penso sobretudo nas pessoas em Gaza, que vivem situações absolutamente limite, incluindo amigos, tradutores e guias com quem trabalhei durante anos. Também guardo laços profundos com pessoas do Brasil, do México, do Líbano e da Palestina. No fundo, são esses laços com os lugares e com as pessoas que estão no centro de tudo e que mais me marcam.
Já houve histórias que decidiu não contar? Porquê?
Sim, há histórias que acabei por não contar e por muitas razões. Algumas simplesmente não cabem na reportagem e perdem se no processo. Outras são demasiado íntimas para as pessoas envolvidas, e não me cabe expô las. Há também casos em que o silêncio é uma questão de segurança.
Acredita que estamos mais informados ou mais expostos à desinformação?
As duas coisas são verdade. Hoje estamos expostos a uma quantidade esmagadora de informação, difícil de filtrar, sobretudo para quem não tem treino para distinguir o que é credível do que é falso e com a inteligência artificial isso tornou se ainda mais assustador, porque tudo pode ser fabricado. Há perigos visíveis e subterrâneos que nem conseguimos identificar totalmente. Mas, ao mesmo tempo, a internet pode ser vital. Para nós, ficar offline é um privilégio; para muitos, como os palestinianos, pode significar, perder a única forma de mostrar ao mundo o que vivem. Depois de 7 de Outubro, com jornalistas impedidos de entrar em Gaza e repórteres locais a serem mortos, foram os próprios palestinianos que documentaram o seu sofrimento através dos telemóveis. Isso foi decisivo. Por isso, vivemos entre estas duas realidades paralelas: uma massa de desinformação que manipula e assusta, e uma tecnologia que, em certos contextos, garante voz, memória e até sobrevivência.
Como vê o jornalismo de guerra atualmente?
Vejo o jornalismo de guerra hoje com enorme preocupação. O que aconteceu em Gaza representa, para mim, o maior colapso do jornalismo internacional: os jornalistas estrangeiros foram impedidos de entrar, os repórteres locais foram sistematicamente mortos e o mundo falhou em pressionar Israel para permitir cobertura independente. Foi uma vergonha histórica para o jornalismo ocidental. Ao mesmo tempo, é importante lembrar que fazer reportagem internacional é cada vez mais difícil porque exige meios: viajar, alojar se, remunerar intérpretes, guias e motoristas, garantir segurança. E esses recursos são cada vez mais escassos. Isso cria zonas inteiras do mundo que ficam às escuras, sem qualquer cobertura: partes de África, da Ásia, e muitos outros lugares de que simplesmente não sabemos nada. No caso da Palestina, os jornalistas de Gaza foram heróis absolutos, arriscando e perdendo as suas vidas para mostrar o que estava a acontecer. E os próprios palestinianos, com smartphones e redes sociais, tornaram possível que o mundo visse aquilo que o jornalismo tradicional não conseguiu cobrir. Mas essa coragem convive com o maior falhanço do jornalismo cá fora.
Que lições fundamentais a guerra lhe ensinou sobre o ser humano?
A guerra ensinou me que o ser humano contém todo o espectro possível do mais cruel ao mais extraordinário. Ao longo dos anos, e sobretudo ao trabalhar temas como Hiroshima, Auschwitz, os uigures, os rohingyas, os arménios, os povos nativos da Namíbia e agora Gaza, percebi como é trágico que a humanidade não aprenda com os seus próprios horrores. Continuamos a repetir massacres, genocídios e violências extremas. Depois de 7 de outubro de 2023, a minha visão do humano mudou ainda mais: vimos em direto tanto o lado mais vil e desumano como o mais heróico e resistente. Tudo isso é humano. A crueldade, a coragem, as sobrevivências fazem parte da mesma condição. E talvez eu continue a escrever livros justamente para tentar responder a essa pergunta impossível.
Depois de tudo o que viu e escreveu, ainda há espaço para esperança?
Sim, tem de haver. Se a resposta não fosse sim, significaria que já não estamos vivos por dentro. Enquanto houver pessoas a lutar pela vida, como tantas que vivem situações extremas em vários lugares do mundo, a nossa única resposta possível é continuar a acreditar. Mesmo quando parece não haver nada a esperar, temos de manter a esperança.
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Nota do Editor
O Professor e Jornalista Luís Humberto Marco enviou-me alguns números do jornal Ágora – JORNAL LABORATÓRIO DO CURSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO/JORNALISMO, da UNIVERSIDADE DA MAIA – UMAIA, sendo a entrevista à Escritora e Jornalista Alexandra Lucas Coelho publicada no número 37, Domingo, 19 de Julho de 2026.
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