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José Afonso – A nossa voz (2) – por Carlos Loures

Militar «sem aprumo» e professor «indisciplinador» – cantautor genial

 

Começa a cumprir em Mafra, no C.O.M., dois anos de serviço militar obrigatório. Mobilizado para Macau, salva-se desta viagem por motivos de saúde, vindo depois a ser colocado num quartel em Coimbra. «Fui o menos classificado de todo o curso por falta de aprumo militar».

 

Em 1954, nasce a sua filha Helena, e Zeca tem grandes dificuldades em sustentar a família. Em 1958, dadas essas dificuldades económicas, envia os dois filhos para junto dos avós, então de novo em Moçambique. Em 1956 é editado o seu primeiro LP – Fados de Coimbra. Em 4 de Dezembro de 1957, actua em Paris no Teatro «Champs Elysées», acompanhado por Fernando Rolim, pelas guitarras de António Portugal e de David Coimbra e pelas violas de Sousa Rafael e David Leandro. Ainda estudante, dá aulas num colégio particular de Mangualde e, depois, como professor-provisório da Escola Industrial e Comercial de Lagos.

 

Em 1959, leccionará na Escola Industrial e Comercial de Faro: «A minha acção como professor era mais de carácter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes um espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais». Um «indisciplinador de alunos», é como Zeca se auto classifica e sintetiza a sua acção docente. É também neste ano que começa a cantar em colectividades populares. Em Faro convive com o casal de poetas Luísa Neto Jorge e António Barahona da Fonseca e ainda com António Ramos Rosa.

 

É, em 1960, colocado por alguns dias num colégio de Aljustrel, sendo posteriormente transferido para a Escola Comercial e Industrial de Alcobaça onde permanecerá até ao final do ano lectivo. Em 1960 é editado o disco Balada de Outono (Menino de Ouro e Senhor Poeta), o quarto na discografia de Zeca. Sobre a Balada, diz: «Dominada ainda pelo velho espírito coimbrão, é o produto de um estado perpétuo de enamoramento» (…) uma espécie de revivescência tardia da juventude». Os Vampiros e Menino do Bairro Negro Em 1962, nos Estados Unidos, é editado o álbum Coimbra Orfeon of Portugal, que inclui duas baladas de Zeca: Minha Mãe e Balada Aleixo, «Homenagem a António Aleixo, poeta cauteleiro, natural de Loulé.» Nestas duas composições é acompanhado à viola por José Niza e por Durval Moreirinhas. Participa em digressões pela Suiça, Alemanha e Suécia. Em 1963 conclui o curso, com uma tese sobre Jean-Paul Sartre – Implicações substancialistas na filosofia sartriana. Divorcia-se de Maria Amália, casando depois em Olhão com Zélia. Sai o LP Baladas e Canções (Ronda dos Paisanos, Altos Castelos, Elegias…).

 

Diz Zeca sobre a Ronda, que depressa será entoada de boca em boca – em reuniões de estudantes, em fábricas, em serões pequeno-burgueses e até nos cárceres políticos: «A música ocorreu-me no WC do rápido, Faro-Lisboa, depois da estação da Funcheira» (…) «Em Lisboa inteirei-me dos postos do exército, que são muitos e soantes. Rimados às parelhas dariam uma canção popular, capaz de ser entendida por soldados e generais.» E foi. Em 1963 surge então o disco Baladas de Coimbra que inclui

 

Os Vampiros, Menino do Bairro Negro, Canção Vai… e Vem… e Pombas.

 

O título da capa não reflecte a realidade, pois este disco marca uma ruptura com a elitista tradição da balada e do fado coimbrões. A voz do Zeca passa os muros da velha cidade universitária e, como um rio caudaloso e de irresistível força, salta para os lábios de milhões de portugueses – torna-se impossível não associar os seus vampiros aos ávidos barões do regime salazarista: Eles comem tudo/ eles comem tudo/eles comem tudo/e não deixam nada… O Zeca explica: «Numa viagem que fiz a Coimbra apercebi-me da inutilidade de se cantar o cor-de-rosa e o bonitinho» (…) «Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja actualidade poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair.» Como nota de humor, refira-se que uma então famosa marca de pudins quis comprar os direitos do refrão de Os Vampiros para servir de música de fundo a um spot publicitário. Obviamente, Zeca recusa.

 

Em Menino do Bairro Negro, inspirada na vida dos meninos de um bairro degradado – o Barredo, no Porto – essa intenção de «molestar consciências» torna-se ainda mais evidente. A emigração forçada pela miséria e pela guerra colonial, bem como o aparecimento, nas periferias das grandes cidades, de bairros de lata (fruto do começo da desertificação do interior), eram, no começo dos anos 60, realidades inseridas a fogo no quotidiano dos Portugueses.

 

 

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