SALAZAR E A I REPÚBLICA – 44 – por José Brandão

1920 – Salazar e as mulheres

A vida ia correndo bem a António de Oliveira Salazar. O seu património progredia. Os seus depósitos no Banco Popular, no Ultramarino e na Caixa Económica cresciam. O produto dos juros aumentava. Alegadamente de modéstia contemplativa o filho do Vimieiro caprichava no seu vestir. Andar bem escanhoado, e passado a ferro com aprumo era cuidados que não dispensava. Trajando sempre de escuro carregado e usando luvas, e gravatas de malha de seda, frequentava a alta-roda conservadora de Coimbra, onde não lhe faltavam fiéis entusiastas. Surgiam rumores. Falava-se em romances e até do seu casamento. Segundo escreve Franco Nogueira, Salazar ia-se divertindo com tudo isto. Em carta a Glória Castanheira, pianista e uma das admiradoras, que Franco Nogueira menciona, Salazar escrevia:

«Sabe V. Ex.ª que de vez em quando, quando menos conto com isso, eu estou para casar, ou melhor, anunciam-me que estou para casar. E amigos mo afirmam com um tal tom de convicção e de sinceridade que eu próprio, abalado já, me sinto movido a crê-lo. Criaram-me assim um tal estado de espírito, que tudo julgo possível nesta matéria e muito encarecidamente peço a V. Ex.ª me não leve a mal que algum dia me encontre casado. Posso jurar-lhe que foi sem querer, e sem saber. Eu não me importo com boatos nem o que diz toda a gente, mas já estive, algumas vezes em que mais se acirram estes ditos, para fazer publicar nos jornais e nos cartões para enviar pelo correio, a participação seguinte: «F. de tal participa ao público em geral e às pessoas das suas relações que se encontra inteiramente livre, sem noiva, sem namorada, sem flirt ou qualquer entendimento, e que para a todos poupar os seus cuidados que tanto o penhoram, fará participação em sentido contrário quando esta situação se encontre por qualquer motivo alterada». Creio que assim eu garantiria a todos informações mais seguras que as que estão constantemente dando» *

*Franco Nogueira, ob. cit., p. 215.

António de Oliveira Salazar não parecia muito fadado para ter mulheres demasiado presentes na sua vida e muito menos para casamentos. Amigo íntimo de Manuel Gonçalves Cerejeira, de quem procurava seguir os conselhos nestas matérias, Salazar estava mais interessado noutras canseiras. Continuava a acompanhar a política do país, a seguir de perto as actividades do CADC e a militar destacadamente no movimento católico.
Em matéria de mulheres de companhia ou de amantes na cama, a ideia que está mais difundida de António de Oliveira Salazar é a de um homem, fanaticamente religioso, severamente casto e demasiado antiquado para se envolver em desvarios amorosos.
É um celibatário ríspido que não bebe, não fuma e não se interessa por mulheres que o envolvam em comprometimentos mais vastos.
Profundamente ligado ao padre Manuel Gonçalves Cerejeira, este não lhe deixa margem para que a intimidade que existe entre ambos possa ser trocada por outra saia que não seja a da sua sotaina repreendendo-o abertamente como já foi referido.
Na sua biografia sobre Salazar, Franco Nogueira fala de «horas de grande intimidade» entre os dois amigos, «quando sós, pelas noites de inverno»: «No casarão dos Grilos, quando sós, pelas noites de inverno, os dois amigos passeavam horas no grande salão, de um lado para o outro. Não havia aquecimento, tudo era escuro e álgido: Cerejeira abafava-se de mantas pelos ombros, Salazar envolvia-se no seu grosso capote alentejano».
(…)
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