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“Foi um sonho lindo que acabou, houve aqui alguém que se enganou” – Carlos Loures

 

Foi numa tarde de Agosto no Verão de 1975. Da janela do escritório da empresa onde trabalhava, numa avenida de Lisboa, via passar uma manifestação onde se gritavam as palavras de ordem habituais na época. Ao meu lado estava um administrador. Antifascista,  ex-membro do Partido Comunista, estava naquela altura mais ligado ao PS. Estivera preso uns anos. Por aqueles anos setenta, possuía uma grande fortuna pessoal e uma posição importante. Abanou a cabeça: «- Não foi para isto que se fez o 25 de Abril! Não foi por isto que lutei e fui perseguido». «Isto», eram os gritos de «abaixo a exploração capitalista», e os graffiti que os manifestantes deixavam pelas paredes, como um eco da sua ruidosa passagem – e também as greves, os saneamentos, o COPCON…

 

Não respondi. Não havia resposta possível. Eu, também tivera os meus dissabores durante a ditadura (embora não tão grandes como os dele), sempre desejara que as pessoas se pudessem manifestar livremente. Tinha sido por «aquilo» que eu tinha lutado. Por aqui se vê, como o termo “antifascista” era impreciso e ilusório. Para aquele homem e para mim a democracia significavam coisas diferentes – fôramos antifascistas por motivos diferentes. Cada um sonhara a queda da ditadura de modo diferente.  A manifestação cabia nos meus sonhos. Para ele, o sonho dera lugar ao pesadelo.

 

António Gedeão garantiu que «o sonho comanda a vida». Por seu turno, Lenine disse em «Que Fazer?»:  «Ai desses homens mesquinhos que não sabem sonhar!». Durante a ditadura, sonhávamos com a democracia – alguns limitavam-se a sonhar; outros sonhavam e agiam no sentido de tornar o seu sonho realidade, estabelecendo relação entre a utopia e o mundo real (como diz  Lenine nessa obra).

 

Quando antes da Revolução, falávamos da «unidade dos antifascistas», verbalizávamos uma utopia dando corpo a uma ideia que só podia ter viabilidade no curto-prazo – a unidade de que se falava era a da acção contra a ditadura. Mal a ditadura caiu, a ilusão da unidade caiu com ela – os interesses individuais, de classe, as opções políticas, fizeram ruir essa ficção.

 

Aquela explosão popular que encheu as ruas e que significou o fim da guerra colonial, a concessão da independência às colónias, a criação de dezenas de novos partidos, o nascimento de assembleias populares nas empresas, nos bairros, nas escolas, apanhou todos de surpresa. Aquela onda de paixão democrática que, como um tsunami varreu o País de Norte a Sul, surpreendeu todos, apanhando desprevenidos, não só os patrões, como também os democratas e antifascistas que tinham conspirado e lutado contra o regime ditatorial; surpreendeu até mesmo os partidos e movimentos que, criados na clandestinidade, tinham como razão da sua existência a crença na força dos trabalhadores e a esperança no advento da democracia.

 

A ilusão da democracia, ganhando as ruas e os corações, excedeu o que a nossa capacidade de sonhar, pudera imaginar. Pensávamos que nada seria como até então. Que tudo ia mudar. Porém, lá veio o 25 de Novembro «repor a normalidade» e, como diz o José Mário Branco – Foi um sonho lindo que acabou, houve aqui alguém que se enganou…

 

O meu companheiro da varanda naquele Agosto de há 36 anos já morreu, mas ainda viveu o suficiente para ver cumprido o seu sonho – os administradores a administrar, os corruptos a enriquecer, os trabalhadores a trabalhar, os marginais a aterrorizar, os políticos a politicar… tudo arrumadinho, tal como ele sonhara. Mas agora sou eu quem diz: – e então o meu sonho? – Não foi para isto que se fez a Revolução, não foi por isto que lutei.

 

Vivemos na ilusão da democracia. A verdadeira (voltemos ao Zé Mário) é um sonho lindo para viver, quando toda a gente assim quiser.

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