SECTARISMOS – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 1949 tinha eu uns 17 anos. Contra o Estado Novo de Salazar o General Norton de Matos candidatou-se à Presidência da República. Integrei-me num bando de estudantes e jovens operários que saíram pelas ruas de Lisboa a colar cartazes com o retrato do Norton. Aqui e ali fomos cercados por soldados da GNR comandados pela PIDE. Arrastados para a António Maria Cardoso, ali sofremos enxerto de porrada. Depositaram-nos depois no presídio de Caxias. A mim e a mais 20, calhou uma gaiola no rés do chão, virada a nascente. Numa das manhãs, para além da janela gradeada, em contraluz vi dois soldados da GNR a patrulhar o terreno junto à nossa jaula. Dei um estrondoso pum e gritei: – Já matei um! Toda a malta acordou às gargalhadas. Houve inquérito para saber quem fora o engraçado. Ninguém se descoseu. Quanto mais apanhavam, mais riam. Por ordem do Salazar o general Carmona foi reeleito. Só depois de conhecido o resultado é que me soltaram. Voltei a militar no Juvenil. Na primeira reunião contei o acontecido em Caxias e garanti que, nos tempos que corriam, até um peido podia ser revolucionário. A rapaziada matou-se a rir. Só o controleiro é que ficou sério e mandou que todos se calassem. Insisti. Gritou: – Silêncio! O que é que se há-de fazer? Sectarismos…

 

 

OS VELHOS

  

Na rua da minha infância havia uma casa onde moravam dois velhos: o Quim com noventa anos e o seu filho Zé, com setenta.

O grande divertimento da canalha miúda era quando o Quim arriava umas bengaladas nos costados do Zé, enquanto lhe gritava:

– Zé, vê se cresces, vê se te fazes homem!

Todos ríamos, mas todos tínhamos muita pena do Zé. Conforme fui crescendo, mais pena passei a ter do Quim.

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