Mulheres 1 – Eduardo Galeano e Apolo Trágico – Marguerite Yourcenar

 

 

 

Eduardo Galeano  Mulheres 1

 

 

 

 

 

 

 

Marguerite Yourcenar  Apolo Trágico

 

 

MEI0-DIA: a hora do crime em Micenas…

 

Quem grita assim? Cassandra. Tróia foi tomada, fogueiras de alegria flamejam em todos os cumes da Argólida e os poetas farão durar esses fogos durante quase trinta séculos. As encostas de Micenas estão floridas de papoilas rubras e como que embandeiradas por ordem de Clitemnestra. Mas a sua cor não é a do crime, simplesmente a do Verão. No alto da Acrópole, o carro pára chiando diante da porta das Leoas; esta entreabre-se rangendo. Agamémnon, vítima designada, toiro que se julga deus, pisa tapetes de púrpura que a própria rainha sabe serem demasiado faustosos, dema­siado sagrados para um homem, provocarem a inveja divina e justificarem de antemão o desastre. Lá em cima, na casa de banho do palácio, os amantes adúlteros afiam as suas facas como hoteleiros decididos a sangrar o estrangeiro, pois, ao cabo de dez anos de guerra, de glória e de ausência, Agamémnon não passa de um estrangeiro para o coração de Clitemnestra.

 

Sentada sob um arco do pátio, Cassandra aguarda que a chamem a esse palácio túmulo. Amada por Apolo, Cassandra recusou-se outrora ao deus. Com conheci­mento de causa, essa mulher que sabe o futuro, preferiu as servidões humanas aos amplexos do deus. O seu castigo por haver recusado o Sol parece provir do seu crime: as suas predições permanecerão obscuras; Apolo não lhe concedeu que os seus oráculos fossem com­preendidos. Tudo se passa como se não a ouvissem gritar. Apesar dessa louca que profetiza na sombra, não cessaram de abater-se calamidades sobre o seu povo.

 

Escrava, exilada, órfã vestida de negro, Cassandra não acusa nem o rei que a arrasta para a morte, nem a esposa ofendida que ergue já o machado, nem a beleza fatal de Helena que, no entanto, está na origem de todos os seus males. Ela acusa Deus. Ela remonta ao Sol como à causa de tudo. Ela sabe que Apolo se reserva a vin­gança. Egisto e Clitemnestra, servirão, quando muito, de cabo e de lâmina à faca celeste. Apolo, deus dos caminhos, senhor das pistas por onde galopam os cava­los da manhã, conduziu a estrangeira a essa estalagem funesta.

 

Ressoam gritos; na câmara do banho, Agamémnon agoniza no vapor vermelho. Chamada a altos gritos pela rainha, sabendo aonde vai, Cassandra precipita-se para junto desse moribundo cujo leito partilhou, cai no meio do pátio atingida por um golpe de sol. Na encosta fatal, já não há ninguém. O guarda das ruínas dorme no cubículo de porteiro do palácio que é agora o de Egisto.

 

No sopé da encosta, o proprietário do Hotel de Ia Belle Hélène fecha os postigos para escapar ao fogo do céu. Apolo, deus ciumento, reina só, na colina de Micenas, punhal esplêndido num seio de ouro.

1934

(in Marguerite Yourcenar, Peregrino e Estrangeiro, Livros do Brasil)

 

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