Um estudo recente publicado na revista JAMA, sugere que o baixo consumo de sal, além de não ter qualquer significado em relação à hipertensão, aumenta o risco de morte por doença cardiovascular.
A ideia do que o consumo de sal aumentaria a pressão arterial baseia-se em questões químicas e fisiológicas. Sabendo-se que o sal leva a uma retenção de água, isso levaria a um aumento transitório do volume sanguíneo e portanto a um aumento transitório da pressão arterial.
O organismo vai corrigir esse aumento com a excreção de sódio na urina. No caso de um doente hipertenso, o organismo deverá aumentar ainda mais a pressão arterial para manter o nível de sódio satisfatório.
Isto é a teoria que levou aconselhar à população em geral e aos hipertensos em particular a redução do consumo de sal. No entanto, falta demonstrar a existência de uma ligação clínica entre o consumo de sal, a pressão arterial e o risco cardiovascular na população em geral.
Em maio deste ano, a prestigiada revista de medicina JAMA (Journal of the American Medical Association) publicou um estudo que põe em questão um dos mitos mais tenaz da medicina: o consumo de sal aumenta a pressão arterial e o risco cardiovascular.
Neste estudo, foram seguidas 3681 pessoas durante 8 anos, e foi medida a excreção urinária de sal. Foram assim constituídos 3 grupos:
– baixo consumo de sal (média de 107 mmol de sódio), – médio consumo de sal (média de 168 mmol de sódio), – elevado consumo de sal (média de 260 mmol de sódio). (De assinalar que a excreção de sal na urina não equivale obrigatoriamente ao consumo de sal.)
Foram avaliados dois parâmetros:
1 – A existência de uma correlação entre o consumo de sal e a tensão arterial.
No grupo de baixo consumo, verificou-se o aparecimento de uma hipertensão em 27% dos doentes, no grupo de médio consumo a hipertensão foi verificada em 26,6% e nos de elevado consumo em 25,4%.
Conclusão: não existe qualquer relação entre o consumo de sal e o aparecimento de hipertensão arterial.
2 – A existência de uma correlação entre o consumo de sal e a mortalidade cardiovascular.
Durante estes 8 anos, verificou-se o falecimento por doença cardiovascular de 84 doentes. No grupo de baixo consumo: 50 mortes, no de médio consumo: 24 mortes e no de elevado consumo: 10 mortes.
Conclusão: o risco de morte cardiovascular é 54% mais elevado nos que consomem pouco sal.
Este estudo põe assim em questão, geralmente admitida pela classe médica: a existência de uma relação entre o consumo de sal e o aumento da pressão arterial ou de morte cardiovascular. Neste estudo, a morte cardiovascular até seria mais elevada nos que consomem pouco sal.
Estes resultados também levantam a questão de se criarem leis em relação à restrição do sal na alimentação.
http://jama.ama-assn.org/content/305/17/1777.abstract?sid=22267316-7de3-4721-84d6-d7658d359332
* Médico de Medicina Interna
