CONTOS & CRÓNICAS – «DROGAS LÍCITAS» – por Carlos Reni da Silva Melo

contos2 (2)Antigos textos religiosas e literários mostram que, em todas as épocas e lugares, os seres humanos usaram (e abusaram de) substâncias capazes de modificar o funcionamento do sistema nervoso, induzindo sensações corporais e estados psicológicos alterados. A fuga para estados alterados de consciência, para sedação ou exaltação, foi uma ambição constante por toda a parte, em todos os séculos.

Não houve civilização que não procurasse fugir à normalidade com a ajuda do álcool, tabaco, chá, café e plantas de todas as espécies. (Lembram do best-seller UMA ESTRANHA REALIDADE, de Carlos Castañeda, sobre o uso do cogumelo peyote, pelo bruxo Don Juan?). A busca por agentes modificadores das funções nervosas é considerada, por alguns autores, um impulso tão potente como os que levam à satisfação de necessidades fisiológicas, podendo mesmo suplantá-los. O mesmo sistema nervoso está preparado para responder aos intoxicantes químicos quase da mesma maneira que responde às recompensas da alimentação, da satisfação da sede e do sexo.

Através de toda a nossa história como espécie, a intoxicação funcionou como impulso básico da fome, da sede e o sexo, por vezes-mesmo até- obscurecendo todas as outras atividades. Drogas também são usadas para reduzir sentimentos desagradáveis de angústia e depressão, tais como o medo da própria morte, a única certeza imutável. Usam-nas, também, e principalmente, para sentir-se bem, para melhorar suas relações; para exaltar sensações corporais e provocar gratificações sensoriais de natureza estética, e, especialmente, eróticas; para aumentar rendimentos psicofísicos, reduzindo sensações desagradáveis, como dor, insônia, cansaço ou superando necessidades fisiológicas, como sono e fome; como meio de transcender as limitações do corpo e o jugo do espaço-temporalidade, unindo-se à realidade por trás de todos os fenômenos, ou, mais intrinsecamente, a alguma entidade espiritual qualquer, capaz de conferir, temporariamente, poderes especiais.

Especialistas têm relacionado o uso de drogas, como o crack, ao crescimento da criminalidade em grandes centros urbanos, e, também, com o aumento da violência nesses crimes (como assassinatos e atos de desmesurada crueldade durante assaltos etc). Essa correlação entre a droga e violência estaria ligada não apenas com a necessidade intensa de uma dose, levando a atos criminosos, mas, também, pelo efeito psico-estimulante da droga, que agiria na liberação de impulsos agressivos. Os dias atuais nos mostram uma crescente onda de consumo nos mais variados cantos do mundo. Ao analisar os dados que nos são apresentados por jornais e revistas, vimos que o álcool é a droga eleita de maior consumo, tanto entre homens como mulheres, jovens e indivíduos maduros, seguido pelo tabaco e medicações (calmantes e estimulantes).

Aliás, o uso de drogas lícitas supera o das ilícitas. No campo médico, as pessoas acometidas de alcoolismo procuram mais as consultas cardiovasculares, pneumológicas e reumatológicas. Ainda, as músculo-esqueléticas, gastroenterológicas e traumatológicas. Em psiquiatria, neurologia e hepatologia, representam os atendimentos de urgência e internamentos em hospitais psiquiátricos. No campo social, os problemas são seríssimos: aumento da taxa de criminalidade e delinquência, separações e suicídios, assim como na taxa de desemprego. O coração é uma das principais vítimas das drogas lícitas. Algumas delas tem ação lesiva direta sobre esse órgão, e, outras, provocam alterações no organismo que acabam tendo repercussão sobre o trabalho cardíaco. Os hormônios anabolizantes elevam a pressão do sangue e aumentam a massa do tecido corporal que deverá ser irrigada, sobrecarregando o trabalho cardíaco, facilitando dilatações do órgão e risco de infartos. Os remédios para redução do apetite e do peso aceleram os batimentos cardíacos. O risco é reversível com a interrupção do uso dos medicamentos.

Enfim, o uso de drogas lícitas, como enfatizado, são tão prejudiciais como as demais, cabendo aos governantes a implantação de programas preventivos, assim como da sua limitação e controle.

* O autor tem curso de extensão universitária em Medicina Legal pela PUC/RS.

 

1 Comment

  1. É sempre um prazer renovado ter o privilégio de ler os artigos publicados por Carlos Reni.
    Aprendemos um pouco, cada vez mais.

Leave a Reply