Site icon A Viagem dos Argonautas

COVA DO VAPOR: ESCOLA INFORMAL DE ARQUITECTURA – por Clara Castilho

 

Foto Clara Castilho

 

Nesta escola, ninguém ensina e todos aprendem, num projecto piloto, “The Informal School of Architecture” (TISA) onde mais de 50 jovens vieram para a Cova do Vapor, em Almada, “aprender com quem ainda sabe fazer”. A ideia partiu dos arquitectos Filipe Balestra e Sara Goransson. Puderam levar a cabo este sonho porque a associação de moradores da aldeia piscatória da Cova do Vapor lhes cedeu o espaço: o número 99 da rua Fernando Correia, a espreitar o mar. E porquê nesta aldeia? Porque talvez seja a última aldeia piscatória da região de Lisboa que ainda não está destruída.

 

Foi aldeia de pescadores, hoje em dia é aldeia balnear, piscatória e suburbana. Em cinquenta anos foi empurrada mais de meia dúzia de vezes pelo mar para dentro da mata de S. João. Não tem escola, centro de saúde ou qualquer serviço público. As suas construções mais ou menos precárias, encavalitadas umas nas outras.

 

Em 2002, o jornalista José Antonio Cerejo informava existirem cerca de 350 casas e cerca de 200 habitantes permanentes, sendo que a Associação de Moradores tinha cerca de 400 sócios.

 

Agora, em 2011, estes jovens técnicos afirmam que ali “não há professores – apenas alunos” e que a tarefa é simples: “Ouvir a comunidade, registar o que pensa e aprender com quem ainda sabe fazer”.

 

Consideram elas que é preciso aprender “com quem ainda sabe lavrar a terra e com quem ainda sabe ir ao peixe”. Pensam que “é preciso guardar todo este conhecimento para que depois, de uma maneira mais científica, os aprofundar e ver o que é que se pode fazer a nível económico e a nível social para alcançar a sustentabilidade energética e alimentar”.

 

Escolheram duas escolas profissionais em Lisboa, pediram 22 alunos para um projecto piloto, mas receberam 50, dos 16 aos 25 anos.

 

Na sede podem ser vistas maquetas das casas da aldeia: uma casa por dia vezes 50 alunos, vezes mais de dois meses de trabalho. O trabalho há de ser exposto na aldeia, para os moradores, e depois nos espaços que a TISA conseguir encontrar disponíveis.

 

Os técnicos falam com quem encontram na rua, recolhem memórias, penetram nos laços sociais, recolhem críticas às maquetes elaboradas.

 

 

 

Em breve será publicado um livro que, para além de memórias, contará com um projecto para o futuro.

 

O arquitecto Filipe Balestra, que nasceu no Brasil e cresceu em Portugal e agora se estabeleceu na Suécia, já tinha experiência nesye tipo de intervenção, nomeadamente na escola na Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro, e em Pune na Índia. Considera a arquitectura como “instrumento de evolução da cidade e do ser humano”. Assim, procura “inverter situações trancadas e negativas com chaves positivas”, tentando “descobrir a solução apropriada” para cada projecto em que esteja envolvido. Foi co-fundador do ateliê Urban Nouveau (www.urbannouveau.com), plataforma que reúne o talento e esforço criativo de arquitectos, urbanistas, designers gráficos e afins e que tem em mãos vários projectos de carácter social.

 

De futuro, a Avenida dos Milionários, a Travessa da Alegria, a Casinha dos Meus Sonhos e o Lar dos Meus Netos poderá vir a ter outro rosto, mas poderá ser, resultado deste trabalho, um rosto que tenha a alma dos seus moradores.

Exit mobile version