A ESCOLA IDEAL DE AGOSTINHO DA SILVA – por Clara Castilho

 

 

No início deste ano lectivo, com tantas modificações (para pior), com tantas crianças “inclusas” mas completamente excluídas porque não recebem o atendimento que necessitariam, vem-me à memória Agostinho da Silva, para me agarrar à sua utopia e pensar que ainda poderemos esperar outros tempos.

 

Ora, ele distinguiu entre instrução e educação, pois a primeira só prepara as pessoas para uma profissão. Preocupou-se com o analfabetismo, não o dos que se recusam a aprender a ler e rejeitam a influência da cultura dita erudita, mas dos que avançam na vida precisamente por não entenderem o que lêem.

 

Gostava de referir a opinião de uma mulher analfabeta que dizia que a escola da sua aldeia era muito bonita, e os meninos iam lá aprender coisas, mas que estava aberta só quatro ou cinco horas por dia. E ela achava que deveria ter as portas abertas todo o dia, para todas as pessoas poderem lá ir perguntar o que não sabem.

Agostinho da Silva considerava que todas as crianças têm uma capacidade enorme de se interessarem por tudo, de quererem saber, sobretudo de perguntar coisas. Isto verifica-se com tal agudeza que, por vezes, os adultos se vêm atrapalhados com a reposta que hão-de dar. E, quando vão para a escola, toda a mecânica que aí se verifica é precisamente a de não deixar que as perguntas continuem com aquela vivacidade e aquele interesse que tinham. Abafam-se as perguntas, porque perguntar não é conveniente em sociedade e as crianças começam a aprender aquelas respostas que são convenientes par viver em sociedade sem grandes atropelos, tomam muito cuidado com aquilo que perguntam e procuram aplicar a resposta certa para ao outro, a resposta esperada que já sabem certa.

 

 

Assim, a escola acaba por ser uma máquina de estragar crianças, quando deveria começar por as motivar pela brincadeira. Educam-se os meninos para responderem às perguntas que já têm resposta, quando o ideal seria estarem prontos para responderem às perguntas que nunca se fizeram. Propunha uma escola em que as crianças pudessem perguntar tudo, sair da aula quando quisessem, passarem todos de classe, até descobrirem o que querem fazer da vida.

 

Considerava como apego natural do homem o apaziguamento do corpo, o ter cabeça livre e ouvir a voz do universo. Para ele, o homem não nasce para trabalhar, mas para criar. Previa, como futuro do homem, uma sociedade gratuita, em que ninguém cobraria honorários por serviços prestados, pois ninguém teria necessidade disso. Um dia, a abundância poderia ser de tal ordem que uma pessoa precisando de comer ia comer, precisando de casa tê-la-ia, passando de uma economia de produção para uma economia de distribuição.

 

Via a nossa civilização como “de defesa”, em que toda a gente é educada para produzir, quando, dizia, “se nasce de graça”. Criticava a concepção de que se cresce para “ganhar a vida”.

 

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