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Aurora Adormecida 19 – Eva Cruz

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 19

 

 

(continuação)

 

Aurora apaixonou-se pelo rapaz moreno e simpático. Os pais não gostaram do namoro.

 

* Ele teve outra namorada e constava-se que a tinha enganado, e essa tinha campos e matos.

 

Aurora era aos olhos dos futuros sogros uma pobretana, mas ele não a trocava por nada deste mundo.

 

* Havia festas de arromba na aldeia. Que lindas as de S. Gonçalo! Na procis­são saíam todos os santos nos andores enfeitados, uns à frente, outros atrás. A Imaculada Conceição, a Senhora da Boa Viagem, o Senhor dos Passos e, por fim, o S. Gonçalinho. Seguiam todos conforme a sua jeriquia.

 

º Jeriquia, avozinha, vê lá bem o que dizes, Jeriquia vem de jerico.

 

* Era assim que diziam os antigos. Tu é que não percebes nada disto e és mal­criado.

 

º Tu queres dizer hierarquia e não te chega a língua, não é?

 

O que ela realmente queria usar era a palavra jerarquia.

 

* Uns eram advogados disto, outros daquilo, e saíam conforme a sua importância.

 

° Advogados e santos ao mesmo tempo, avó? O que vai aí nessa cabeça!

 

* Íamos passear no carro até ao mar, claro, sempre acompanhada das outras raparigas da aldeia com quem me dava bem. À Senhora da Saúde fomos, um ano, todas com lenços chineses na cabeça a enfeitar os lindos trenús, e ele sozinho de rapaz. Fez um brilharete quando chegou ao arraial com o carro cheio de raparigas bonitas. Que belo tempo aquele! Já lá vão tantos anos que lhes perdi a conta.

 

º Eras fresca, avó. Além de vaidosa, eras uma levantada da cabeça, uma leviana.

 

* Estás tolo, rapaz, fui sempre uma mulher de respeito e séria. Ele apanhou-me porque eu era inocente. Nunca tive outro homem na vida.

 

º Mas caíste na esparrela como as outras, não é?

 

* Quando se gosta muito, quem quer cai. Coitadinha de mim, não tinha pai nem mãe para me dar conselhos. Perdi o amor maior que pode haver, perdi-o, perdi-o ao nascer.

 

Com três letras se escreve

o nome que eu mais adoro

soletre quem saiba ler

e verá por quem eu choro.

 

º Caíste porque eras uma tolita.

 

* Cala-te rapaz, tu é que só dizes tolices por essa boca fora.

 

Aurora engravidara ainda solteira. Dali para a frente a sua vida foi um inferno. Queriam casar, mas como ela era brasileira, tinham de correr, primeiro, os papéis. Dia após dia surgiam sempre entraves. A barriga co­meçara a crescer e não havia casaco ou xaile que a encobrisse.

 

* Ele, por ele, andava bem intencionado mas as pessoas de fora começavam a murmurar. As minhas próprias amigas eram as primeiras a dizer que ele me não queria para mulher. Eu era pobre e os pais dele não gostavam. Por isso ele nunca iria desobedecer aos pais. Eu seria mais uma para o rol.

 

Aurora, que sempre acreditara no amor do namorado e nas suas boas intenções começava a duvidar.

 

* Se não me quiser para mulher também não lhe servirei para mais nada.

 

Afastou-se, mas ele não se deixava de promessas, mantendo sempre, con­tudo, o mesmo argumento da dificuldade da sua naturalização.

 

Nasceu entretanto a criança, um menino, loirinho como a mãe. Para ela foi o momento mais feliz da sua vida. Foi corno se o mundo inteiro lhe entrasse pela porta dentro. Passou a viver com a criança no Engenho.

 

Dia após dia, ia definhando a esperança da chegada dos documentos, mas agora já nada tinha importância perante a felicidade de ter um filho. Um dia, porém, dissiparam-se as névoas da sua desilusão, e os ambicionados papéis chegaram, finalmente.

 

* Tinha ele pedido tanto a uma senhora da conservatória do Porto, que, comovida com a situação, rasgou os meus documentos de brasileira e fez-me nascer em Portugal na terra que me serviu de berço.

 

Num dia de Carnaval foi Aurora a casar na igreja da sua terra. Deixou o menino entregue a uma amiga. Vestia um vestido curto, cinzento claro e véu comprido, também do mesmo cinzento. Ela própria fez o vestido, o véu e a boda. Um peru assado, um cabrito recheado com os miúdos, dois rolos doces e vinho da Quinta do Engenho.

 

* Pela. primeira vez entrei na casa dos meus sogros. A minha sogra, quando me viu, disse: Ó homem, tu não arranjaste uma mulher, arranjaste uma pomba. E o meu cunhado padre disse também que uma mulher como eu fazia falta naquela casa há já muito tempo.

 

Foram, então, a criada e o Cabalai, buscar a boda a casa de Aurora, e ali se fez uma nova família. Pela primeira vez viram os avós o menino. Trazia vestido um fatinho azul e branco feito pelas mãos primorosas da mãe.

 

(continua)

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