Eva Cruz Aurora Adormecida
Capítulo 22
(continuação)
Decidiu então Aurora ir com o cunhado Zé e o cunhado Gonçalo a Rio de Frades.
* Partimos uma madrugada para Cabreiros e daqui para Rio de Frades. De camioneta e a pé lá chegámos. Dormimos em Cabreiros, em casa de um proprietário de filões. Pensei que morria nessa noite. Por baixo do quarto dormiam ovelhas, cabras e bodes. Era essa uma forma de aquecer os quartos. O fedor era tal que ia pondo a minha filha pela boca. Pensei que perdia o fruto que trazia na barriga.
° Pela boca, avozinha, os meninos não saem pela boca. És uma ignorante.
* Ignorante é ele. Eu sei muito bem por onde eles saem.
° Então por onde saem, avozinha, é pelo umbigo?
* Também achas que saíste pelo umbigo? Oh coitado! Eras muito pequenito!
° Então por onde saem, avozinha?
* Saem por onde tu saíste.
º Tu sabes muito, avozinha, tu és fresca, uma sabidola!
* Se eu sei muito, tu sabes muito mais.
* Num quartito ao lado dormiram os meus dois cunhados, numas camas assentes em bancos de madeira.
A meio da noite ouvi-os falar e rir.
* Está bem, cunhada?
* Eu morro, não aguento tal cheiro.
– Venha cá ver o espectáculo.
* Fui ao quarto deles. Acenderam a candeia e vi-os ambos dois vestidos, à janela, a apontar para duas carreiras de percevejos, cama acima.
– Isto é o exército alemão, cunhada, à frente das tropas vai o Hitler.
* Riram toda a noite e nada dormimos.
De manhã foram à procura dos filões mas era tal a sua localização e inacessibilidade, tão pouca a vontade de gastar esforços, e tão grande a crença na burla, que se contentaram a vê-los de longe. Desiludidos e enganados regressaram, tendo sido alvo de gozo por parte do irmão, marido de Aurora.
– Eu não vos dizia? Estavam lá os filões guardados, à vossa espera!
Mais esperto e mais lúcido, tinha a noção da desonestidade e da corrupção que giravam à volta da exploração do minério.
– Foi pena não terem levado picareta e martelo, que podiam trazer os bolsos cheios. Dava ao menos para o caminho.
Era homem que não corria a foguetes e sabia bem onde a porca torce o rabo. À falta de armas para lutar, conformava-se com o humor, ridicularizando as situações, mesmo que, muitas vezes, as reconhecesse como dramáticas.
(continua)


