Aurora Adormecida 24 – Eva Cruz

 

Eva Cruz  Aurora Adormecida

 

 

Capítulo 24

 

 

(continuação)

 

Aurora era dotada de grande sensibilidade artística. Em tudo onde punha a mão saía obra bonita. Ninguém melhor do que ela era capaz de enfeitar um altar ou dispor flores numa jarra. Com umas simples hastes campes­tres fazia realçar uma mesa de Páscoa. Pintava quadros em vidro, avivando a pintura com papel de estanho no avesso.

 

* Na missa nova do meu cunhado padre, ofereci-lhe um anjo da guarda com a hóstia e o cálice, em tons de azul celeste, que ele muito estimou.

 

Outro irmão do marido, Gonçalo, vivia em Lisboa e tinha um carro de praça junto à Basílica da Estrela. Meteu na cabeça do irmão a compra de mais um carro, a meias, um Mercedes.

 

Gonçalo, homem de uma delicadeza invulgar, passava férias todos os anos em casa do irmão. Oferecia à cunhada bonitos presentes, e deu aos sobrinhos os brinquedos mais lindos que tiveram. Na aldeia brincava-se então com bonecas de trapos, carros e carretas de pau, arcos e ganchetas, Os bonecos por ele oferecidos eram de celulóide ou de loiça, e os carros de folheta, um luxo e o espanto da imaginação das crianças da aldeia. Ao sobrinho ofereceu um triciclo, coisa rara, que o transformou em vedeta, ao dar voltas e reviravoltas, como se fosse artista do poço da morte.

 

A relação destes irmãos, extremamente amigos, foi-se modificando com o tempo, até chegar à ruptura. O dinheiro que o carro rendia era pouco, gerando este negócio alguma desconfiança que progressivamente pôs fim àquela bonita amizade.

 

Tudo isto, aliado à velha tendência para a frustração, foi empurrando o homem de Aurora para o álcool. Raramente o procurava fora de casa. A sua adega era farta e de boa qualidade. Começou a beber, sempre debaixo da reprimenda do irmão José, o seu fiel amigo. Este bebia muito pouco.

 

Ó homem, tem juízo, um gole no fim da refeição chega para lavar o moinho.

 

(continua)

 

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