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UM CAFÉ NA INTERNET – Pés para que vos quero – por Manuela Degerine

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os pés são tímidos

Escondem-se em meias e calçado

Surgem no banho

Notamos que têm bom ou mau aspecto

Os pés aparecem no Verão

Com unhas vermelhas

Logo os esquecemos

Exclamamos

Ai, os meus pés

Quando alguém os pisa

Quando um sapato os magoa

Quando os sentimos gelados

 

Para saltar ao pé-coxinho

Contamos com vinte e nove ossos

Em cada pé

Trinta vírgula quarenta e oito centímetros

Mede o pé internacional

O meu português feminino

Autorizado pela Troika

Não ultrapassa os vinte e dois

 

A autonomia começa nos pés

Ultrapassadas as liteiras

Dispensamos cadeiras de rodas

Botas de sete léguas

Preferindo ir pelo nosso pé

Mesmo com andarilho

Seja onde for

Pouco importa a distância

 

Sem os nossos pés

Não podemos pedalar

Nem ficar de pé atrás

Nem avançar pé ante pé

Nem esperar de pé firme

 

Sem eles

Não caímos de pé

(pode ser incómodo)

Não saímos com o pé direito

(pode ser fatal)

 

Fazemos prodígios com os pés

Vamos num pé e vimos no outro

O que é bom para o ambiente

Pomos os pés à parede

Sem no entanto a sujarmos

Entramos com pezinhos de lã

Observamos a planta

Dos nossos pés

(Florirá?)

 

Os pés encontram outros pés

Debaixo da mesa

Cobiçando um bom pedaço

Pode alguém lançar-se aos vossos

Antes de pedir a mão

O namorado deseja tocar o pé

(Lembrança da Dama Pé-de-cabra)

 

Com desprezo dizemos

Que tem patas

Mas a delícia suprema

São os pezinhos de coentrada

Estes de porco

 

Ouvimos dizer

(Sobretudo em francês)

Sujo como os pés

E pensamos

Os dele

 

Reconhecemos a inteligência

Dos nossos pés

Raramente o calcanhar de Aquiles

Se situa no pé

 

Muitos têm pé-de-atleta

Não é agradável

Quando levamos com os pés

Mesmo sadios

Não apreciamos

Trazemos um pé na terra

E o outro na lua

Não nos parece cómodo

 

Não gostamos de perder o pé

Nem de o torcer

De ficar atados de pés e mãos

De quem traz os seus nas mãos

 

Incomoda-nos ver os outros em bicos de pés

Embora o tenhamos também feito

(Negamos a pés juntos)

 

Se a ideia não tem pés nem cabeça

Miramos o proponente da cabeça aos pés

E vice-versa

Nós próprios

Calhando

(Calha mais do que queríamos)

Trocamos os pés pelas mãos

Metemos os ditos para dentro

Todavia há muito evitamos

Fazer o pino

Dar pontapés e cabeçadas

 

Acusamos os pés

Se nos parecem de chumbo

Se começamos a arrastá-los

A culpa não é deles

Torna-se definitivo

Quando os viramos para a cova

Entrando na terra dos pés juntos

 

Por isso enquanto é tempo

Somos

(Não centopeias)

Plenamente bípedes

Dedos tornozelos calcanhares

Vai uma caminhada

Vai um pé de dança?

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