UM CAFÉ NA INTERNET – Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 27 – De Ponte de Lima a Valença. Por Manuela Degerine

 Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            A mochila vai por enquanto leve. Avanço por caminhos estreitos, há um ano e um dia inundados, agora secos, ao lado de lameiros transformados em campos de flores. Observo gotas de orvalho a brilhar ao sol. Um rectângulo de erva cortada, que entretanto secou, com uma fileira de montes de esterco, muito alinhados, contrasta no verde e vermelho dos vizinhos campos – bonito de outra maneira em tons de ouro, terra e cinza. Vejo loios, miosótis, pervincas, digitálias, malmequeres, algumas papoulas, numerosas outras flores cujos nomes desconheço. Oiço cantar cucos, oiço assobios e chilreios que, como a flores, também não identifico.


            A mochila continua leve. Passo em Arcozelo às 7h 15, em Labruja às 7h 55, em Arco às 8h 30. Páro no café de Revolta para comprar fruta. Converso com duas mulheres que trabalham nos campos.

 

         A mochila começa a ficar pesada. Aparecem os suecos, subimos a serra. Uma vez mais, falo de Alexandra David-Neel – que eles não conhecem mas querem descobrir – da sua travessia da China à capital do Tibete, a pé, em pleno Inverno, por altitudes acima dos cinco mil metros: uma façanha verdadeira.


           Quando chegamos a Rubiães, os suecos procuram um restaurante, eu páro no albergue para descansar. Descalço as botas, descubro uma bolha, não muito grande, trato-a com Betadine, ponho-lhe um penso. Cozo o resto da massa que devoro com o resto de tomate. Entretanto surgiram duas alemãs simpáticas, notável singularidade, quase um oximoro, com as quais tentei conversar em Ponte de Lima, embora acabasse por desistir, o inglês delas não parecendo melhor do que o meu alemão: quase integralmente nulo; percebo contudo que também balançam entre ficar e continuar. Eu despedi-me dos suecos, os quais pernoitam aqui. Tenho uma bolha no pé esquerdo, porém a perspectiva de escapar a esta companhia cordial, interessante, mas desmancha-prazeres, acaba por me decidir: parto para Valença. Mais vinte quilómetros.

         

         O sol fere, a mochila pesa e, mais preocupante: os pés doem. Sinto a roupa tão molhada como se eu tivesse mergulhado na ribeira. A paisagem é contudo magnífica. Riachos e levadas de água transparente, moitas de madressilva e roseiras bravas, espigueiros antigos e modernos… Avanço lentamente, carregada agora com pedras, cega de luz, entre giestas, num delírio floral, prestes a metamorfosear-me em abelha, quando os suecos me alcançam, happy to see you, Manuela, o prazer da companhia incitou-os a prosseguir. Caminhamos portanto de conserva até Valença. Lena tanto se queixa que o companheiro chega a carregar com a mochila dela… Para além da dele. A senhora lança-me olhares rancorosos como se eu fosse responsável por ela não jazer em Rubiães. Apresso-me a conduzi-los, pelo caminho mais curto, ao albergue de Valença.

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