UM CAFÉ NA INTERNET – Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 33 – De Valença a Mós (continuação III). Por Manuela Degerine

Um café na Internet 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

         Ao lado da capela há um banco de pedra, não me sento, caio-lhe em cima e, decorridos alguns instantes, depois de beber e aliviar as costas, começo o inventário. Entre as botas e as pernas das calças, que demais terei puxado para cima, havia um centímetro de pele nua, a zona inflamada pelas picadas de Vilarinho, agravadas pela fricção das mesmas botas. Descalço as ditas… A vermelhidão aumentou. Pior: inchou. Para além disso… Tenho mais uma bolha nos pés. A terceira. Puxo as calças agora para baixo, o máximo sem me despir, esperando que a alergia se acalme. Volto, fazendo uma careta, a calçar as botas (a careta alivia a dor).

 

 

 

            Interrogo-me. Fico no Porrinho? Molengando o máximo, esquivei-me dos suecos; hoje não posso com o calor dos outros. Por conseguinte, se eles dormem no Porrinho, mais vale eu seguir em frente, senão amanhã recomeçamos, contudo para chegar a Mós, cumpre atravessar o Porrinho, cumpre, na saída do Porrinho, caminhar à beira de uma estrada com camiões… Poderei aguentar mais duas horas? Duras horas…


          Consigo levantar-me, esquecer-me dos pés, recomeçar a andar: três vitórias. Uma hora da tarde. Mesmo através da roupa, chapéu, mangas compridas, lenço à volta do pescoço, o sol é um ferro incandescente porém, como dizia Alexandra David-Neel, para avançar basta ir colocando um pé à frente do outro. Repetidamente. Devar se vai longe, diz o adágio popular. O movimento distrai do sofrimento, a busca da sinalização, a beleza da paisagem, um pormenor que no passado me escapou, embora tudo ocorra de maneira distinta da habitual já que, decorridos vários meses, quando escrevo, só recordo nitidamente o encontro, num sítio onde havia escavadeiras, com uma senhora que também caminha, pois vêm buscá-la de carro e, por causa das obras, estes foram desviados, o indivíduo que por nós passa não é de confiança, murmura a senhora, antes de me desejar bom caminho. Pé ante pé, chego a Mós. 

Leave a Reply