No texto anterior referi a morte de José Dias Coelho. José Afonso em «A Morte Saiu à Rua» é a esse assassínio que se refere. É uma canção de uma beleza arrepiante.
José Dias Coelho, era um artista plástico com prestígio firmado. Militante e funcionário do Partido Comunista Português, dedicara uma gravura à camponesa alentejana Catarina Eufémia, assassinada a tiro por um oficial da GNR, em 1959. E, noutra gravura que criara em homenagem ao operário corticeiro Cândido Martins Capilé assassinado em Novembro de 1961 quando seguia na frente de uma manifestação em Almada, Dias Coelho escrevera a legenda – De todas as sementes deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas.
Um mês depois, no dia 19 de Dezembro de 1961, chegou a sua vez.
Seguia pela Rua dos Lusíadas, em Alcântara, eram cerca das oito da noite. Um carro parou bruscamente e cinco agentes da PIDE saltaram do interior, cercaram Dias Coelho e desfecharam-lhe três tiros à queima-roupa. Levaram-no no automóvel, e devem-no ter torturado para tentar obter alguma informação.
Cerca das dez da noite, entregaram-no, agonizante, no Hospital da CUF.
Todos estes acontecimentos se sabiam. Circulavam panfletos policopiados narrando-os. Quando alguém era preso, para além de tudo o que lhe ia acontecendo nos interrogatórios, havia essa sobrecarga de histórias sinistras, mas verdadeiras. Quem estava preso sabia que podia não sair dali vivo. Durante a tortura do sono, horas, dias a fio sem dormir, havia tempo para pensar em tudo isso.
Antes da «tortura do sono», que, como o nome indica, consistia em deixar o paciente sem dormir até «confessar», houve a «estátua» que, à insónia forçada, juntava a imobilidade também forçada. Os «cientistas» policiais parecem ter descoberto que a imobilidade produzia um desgaste físico acelerado e que na nova modalidade, podendo mover-se, os presos aguentavam mais enquanto, privado do sono durante mais tempo, o cérebro se cansava e a capacidade mental de resistir também.
Lembro um estudante de Agronomia que esteve 21 dias sem dormir e que sendo deficiente motor (poliomielite) foi obrigado pelos agentes a dançar a Kalinka… Mesmo assim, não terá sido um recorde.
