Guerra colonial II
Súbita e inesperadamente, numa bela manhã reparámos que os estudantes negros tinham desaparecido da cidade … a frente anti-fascista e anti- colonialista começava a tomar forma.
Para citar alguns nomes, refiro amigos de Moçambique, Oscar Monteiro, José Luis Cabaço, Luis Filipe Pereira, José Julio, Orlando e outros da República dos Milionários.
E também Jacinto Veloso (que eu conheci em 1964 num Festival de teatro da UNEF em Lyon, e com quem estabeleci o primeiro protocolo de colaboração com a Frelirmo). Todos cumpriram o destino honroso da sua geração: lutar pela independência da sua Pátria.
Entretanto, o movimento contra a guerra desenvolveu-se.
Com casas clandestinas, saídas pela fronteira, falsificação de passaportes, recolha de fundos para ajudar desertores e refractários, e organização de apoios em vários paí¬ses de acolhimento. Os quartéis enchiam-se de panfletos anti-coloniais, distribuía¬se o “Manifesto dos Soldados Portugueses” apelando à deserção e à integração na luta anti-fascista.
Nesta acção de risco surgiam episódios cómicos e absurdos. Uma vez, esta eu a diri¬gir a Assembleia Geral da Faculdade de Direito de Lisboa, espreitou à porta um colega que estava na tropa, convenientemente fardado.
– Oh diabo!
Um secretário ficou a dirigir a Assembleia.
– O que é?
– Estão aqui as coisas.
Fiquei verde quando vi uma grande mala de viagem.
– Está aí tudo. – Espera aí. Voltei para dentro, rapidamente acelerei as votações finais, encerrei a Assembleia, e reencontrei o “artista”.
– Vamos embora.
Peguei na mala, pesava como chumbo.
– Eh, pá, tu és doido? trazer isto para a Faculdade! O contínuo olhava atentamente para nós. (No 25 de Abril confirmou-se que ele era mesmo da Pide).
Taxi, casa de uma namorada, mala aberta e surgiu um escaparate de armamento digno do bando de AI Capone. Granadas, Walter, Vigneron, fardas …
– Já que ia fugir, trouxe tudo o que pude.
– Já agora, podias ter trazido o quartel.
Com certeza que se passaram muitos episódios deste estilo em toda a actividade revolucionária e anti-fascista.
Actos inconscientes e irreflectidos, não haja dúvida.
Mas não foi sempre com alguns desses actos que se operou a transformação da História?
Não foi sempre a rebeldia da juventude que derrubou muros e ameias?
Que idade tinham Che, Fidel, Ben Bella, Samora Machel, Dimirrov, Mao, Ho Chi Minh, os nossos Capitães de Abril?
Mais tarde, a partir de 1968, surgiram em vários países da Europa os Comités de Desertores, ponto de encontro e salva vidas de muitos jovens, com roupas, comi-da, casa e empregos.
Organizados por portugueses, mas com a cobertura oficial de intelectuais e Universitários anti-fascistas, muitos deles com a experiência de terem lutado con-tra as tropas Hitlerianas.
Essa cobertura era essencial para defesa da nossa actividade. Mas era evidente que não era suficiente, e passo a contar uma última peripécia (chamemos-lhe assim), antes do 25 de Abril.
