(…)“Vim uma vez do Norte onde fui a um piquenique científico sobre doenças, pretexto para umas boas comidas nortenhas e para, no caminho, visitar a quinta dum amigos e fazer uma cura de vinhos…..Além do que bebi com os bifes de presunto, deram-me dois garrafões de vinho da pipa. Era um tinto doce, suave e aveludado como um “amor-perfeito”. O velho patriarca simpatizou comigo e no meio da animada conversa segredou-me ao ouvido: “Deixe-os lá falar…digo-lhe a si por ser amigo do meu neto: a melhor maneira de apreciar esta preciosidade é de a beber como se fosse vinho de mesa, com bacalhau cozido com batatas!… Experimente, mas não diga nada a ninguém senão… vão rir-se de si!”.
De volta a Lisboa, pensei saborear a receita com o António. Cheguei-me a ele e disse: “Tu, que sabes tudo sobre o Port-Wine, diz-me cá: qual é a comida que vai melhor com o vinho do Porto?”
Ele, conhecedor, disse o que dizem les conaisseurs: “Com amêndoa torrada para aperitivo, queijo da região do Douro ou outras sobremesas, como a boa marmelada…”.
“Nada disso, homem!” É, muito simplesmente, com bacalhau cozido com batatas!…”
“Quem é que te meteu essa?”
“Um velho sage e avisado ancião que me pediu segredo… Queres experimentar?”
“Vamos a isso…”
Fizemos aqui em minha casa em Sesimbra, um almoço célebre que, com outros e vários amigos, tenho repetido ritualmente todos os anos. A essa primeira cerimónia, assistiu também o Redol filho, já então adolescente.
O repasto do bacalhau cozido com batatas, regado com o Porto tinto que eu tinha trazido do Norte, tomou o aspecto cerimonial sagrado e, depois do almoço, a conversa esteve mais animada do que nunca! A disposição e o bom humor eram excelentes. Fomos dar uma volta pela vila e, entretanto, sentámo-nos a uma mesa da esplanada do Café Central para tomar a bica. O António conversou e contou, ao vivo, histórias que escrevia e escrevera.”(…)
Excertos do texto “O FUMO DAS CHAMINÉS NÃO ALTEIA” , do livro do psicanalista João dos Santos “Ensinaram-me a ler o mundo à minha volta”, Assírio e Alvim, Lisboa, 2007, também publicado em Alves Redol: Testemunhos dos Seus Contemporâneos, Org. de Maria José Marinho e António Mota Redol, Caminho, Lisboa, 2001.
