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OS HOMENS DO REI – 63 – por José Brandão

D. JOSÉ (reinou de 1750 a 1777)

 

Nascido a 6 de Junho de 1714, D. José só chegou ao trono trinta e seis anos depois, por morte de seu pai D. João V. A sua união com a princesa espanhola D. Mariana Vitória, filha de Filipe V, foi contratada quando o então príncipe D. José tinha apenas 14 anos, realizando-se o matrimónio a 19 de Janeiro de 1729. D. Mariana acabava de completar 10 primaveras.

 

Cerca de vinte anos depois, D. Mariana era rainha de Portugal. São anos de profundo desagrado face à política e certos hábitos do sogro. Pois muito lhe magoava o facto de D. João V fazer questão em assistir com muito gosto aos autos-de-fé onde eram mortos e queimados muitas centenas de inocentes.

 

Enquanto D. José governava à sombra de Sebastião José de Carvalho e Melo, marquês de Pombal, esse sim o grande reformador, D. Mariana aplicava-se à música e à caça e a todos dava gosto a sua inteligência e perspicácia.

 

Apercebendo-se de que o rei não se interessava demasiado pelo exercício do trono, Sebastião José tratou de meter ombros à empresa de se transformar a si próprio em única realidade, no sentido de a si próprio obter a submissão geral.

 

D. José mantinha algumas ligações, mais ou menos discretas e inconsequentes, com as damas da corte em particular e com as beldades de Lisboa em geral. Foi durante uma das habituais saídas amorosas pela calada da noite que se deu um ainda hoje mal esclarecido atentado contra o monarca.

 

Pelas onze horas da noite de 3 de Setembro de 1758, na estrada de Belém, quando o rei voltava para o Palácio da Ajuda, na companhia do seu criado Pedro Teixeira, o cocheiro ouviu um estalido e viu o clarão de uma descarga de fogo. Não tendo dúvidas sobre o perigo que corria, deu rédeas aos cavalos que meteram a galope.

Tinham passado pela primeira emboscada que ficou por ali. Só o duque de Aveiro tinha disparado o bacamarte, mas errou fogo.

 

Da segunda emboscada não escapou assim o rei. O coche real era levado a galope, mas António Álvares e José Policarpo tinham-na seguido, com os cavalos a toda a brida, e desfecharam nova descarga, ferindo o rei no braço direito.

 

Este ferimento livrou D. José da morte, visto que, desviando-se do caminho que o levava à Ajuda e ao longo do qual o esperavam outras emboscadas que o matariam, foi ter à Junqueira, a casa do cirurgião-mor.

Só de manhã recolheu o rei ao Palácio da Ajuda. O rei não recebia ninguém, tendo o governo declarado que ele estava de cama por motivo de uma sangria.

 

Criou-se um tribunal especial para julgar os acusados de culpados no atentado ao rei. Esse tribunal foi constituído por três ministros, Sebastião de Carvalho, Tomé da Costa Corte-Real e D. Luís da Cunha, por seis desembargadores e pelo procurador da Coroa.

 

Tudo correu no mais completo silêncio. Todas as investigações foram feitas dentro do mais apertado segredo.

Até que, com a maior das surpresas, em 13 de Dezembro de 1758, foram cercadas por tropas de infantaria e cavalaria as casas do marquês de Távora, D. Francisco de Assis, do conde de Atouguia, do conde de Vila Nova, Manuel Távora, do marquês de Alorna, do conde de Óbidos, de D. Manuel de Sousa Calhariz, do desembargador António da Costa Freire e os conventos de Jesuítas.

 

Para as prisões do Pátio dos Bichos, em Belém foram: O duque de Aveiro, D. Jerónimo de Ataíde, conde de Atouguia, D. João de Almeida Portugal, marquês de Alorna, Manuel de Távora, conde de Vila Nova, Condes de Óbidos e da Ribeira Grande e mais uns tantos participantes da festa acima referida.

 

Para os Conventos do Rato, de Marvila, de Chelas e de Santos, mas sem direito a qualquer espécie de peças de vestuário, foram respectivamente: A duquesa de Aveiro, condessa de Atouguia, D. Mariana de Távora, filha da marquesa deste título enclausurada com o marido no Pátio dos Bichos e sua irmã D. Teresa, amante do rei a quem ele estabeleceu uma mesada de vinte moedas de oiro.

 

Concluído este trabalho, havia que arranjar as provas de culpabilidade de todos e de cada um de tais desgraçados.

 

Tendo já tomado conta da Inquisição, à frente da qual colocara um dos seus irmãos, Sebastião de Carvalho e Melo resolveu utilizar os métodos dessa instituição aplicando, sob a sua direcção, o tormento tido como o mais eficaz para levar a vítima a confessar tudo quanto fosse preciso, ou seja, o tormento designado por «trato esperto» que consistia em a amarrar ao potro, submetendo-a ao incrível esticar de membros até ao desmembramento, enquanto os testículos lhe iam sendo simultaneamente apertados.

 

É claro que com uma esperteza de tratamento desta natureza, que era igualmente aplicado às testemunhas no sentido de as obrigar a dizer o que conviesse, a vítima confessava tudo e mais alguma coisa.

 

Com confissões assim obtidas organizaram o processo.

 

Com base em tal processo e em confissões obtidas através da aplicação dos referidos tormentos no decorrer da qual sucumbiram alguns arguidos e várias testemunhas foi, em 12 de Janeiro de 1759, proferida uma sentença.

A esta sentença mandou pessoalmente o próprio Sebastião José acrescentar que:

«A marquesa de Távora fossem mostrados, com a descrição do respectivo funcionamento os instrumentos com que haviam de sofrer a morte, ela, o marido, os filhos e demais parentes, devendo o seu cadáver ser mostrado a estes, antes de sofrerem a aplicação das suas penas.

 

Ao marquês de Távora deveriam ser mostrados os cadáveres dos filhos e da mulher, depois de desmembrados pela execução das competentes penalidades, devendo simultaneamente serem-lhe dadas pancadas no estômago com um maço pesando 18 arráteis.»

 

Enquanto este drama se desenrolava em público, outros se iam desenrolando nos cárceres onde, à cacetada e à chicotada, se iam matando os que tinham conseguido resistir aos tormentos.

 

Entretanto, minado por doença grave, o rei D. José via aproximar-se o fim.

 

Já em 1774, D. José tinha sido acometido de uma apoplexia que sempre o deixara combalido. Lá se foi, porém, aguentando, até que em Junho de 1776 foi forçado a ficar de cama, tendo assumido a regência sua mulher, a princesa D. Mariana Vitória.

 

Mas a doença foi-se agravando, tendo-lhe degenerado, por último, numa hidropisia.

 

Logo que os socorros da ciência foram dados por esgotados, recorreu-se às intervenções milagrosas. Para muitos outros santos se apelou ainda naquele transe de aflições sem esperança. Mas nenhuma influência celeste pôde salvar o corpo do rei.

 

Na noite de 23 de Fevereiro de 1777 falecia D. José I, em virtude de uma doença que havia três anos, com frequência, o prendia ao leito. Tinha as pernas ulceradas, o que lhe causava grande sofrimento.

 

Sebastião José de Carvalho e Melo e Martinho de Melo e Castro foram homens do rei D. José.

 

A seguir: Sebastião José de Carvalho e Melo

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