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Occupy LSX : a indignação avança em Londres, por Philippe Marlière – I. Selecção, introdução e tradução por Júlio Marques Mota.

Nota de leitura


Um  texto dedicado aos jovens resignados do meu país


Depois de ter visto um programa de televisão, Prós e Contras, onde um director de uma Faculdade deste nosso sítio que dá pelo nome de Portugal  ter dado  a entender que se havia jovens licenciados desempregados era porque tinham individualmente feito as más escolhidas na vida. Diga-se, quereria isto dizer que  não se inscreveram na Faculdade de  Economia da Universidade Nova de Lisboa, talvez. Neste caso e dito  uma outra  forma mais directa, o problema foi não o das más escolhas na vida mas sim o de  não terem nascido ricos para que desta forma tenham garantidamente emprego à nascença, certificando-se depois essa capacidade com a passagem pela Universidade Nova. E tudo isso foi dito à frente de uma Assembleia de jovens  que se calou!


Depois de termos um Governo com um ministro da Educação, Nuno Crato, capaz de roubar publicamente quinhentos euros a jovens que a sociedade, o país, um  governo eleito,  consideraram  dignos de serem premiados pelo seu  trabalho  escolar, e tudo isso a juventude aceitou.

Depois de termos um sub-secretário de Estado “Alexandre Miguel Mestre que  deu a entender, numa intervenção a partir do Brasil, que os jovens portugueses que não encontram colocação no mercado de trabalho estão acomodados à situação, no que o governante chama de “zona de conforto”, pelo que o seu conselho é muito direto: emigrem”  e depois de tudo isto não  ter lido nem ouvido que alguma  Associação de Estudantes contra isso protestou.

Depois de tudo isto, não posso deixar de  utilizar outra  ideia  que não seja a de que somos um país de jovens incomodamente  bem resignados e é pena.  E é pena também que a escolha de todos nós, jovens e outros,   tenha até agora  sido a de apoiar esta estranha forma de   estar na avida. a de  incomodamente resignado pela  falta de outras perspectivas de que também não os ensinámos a conquistar, e a responsabilidade aí é também nossa. Não o esqueçamos, portanto.

A todos, portanto, sugiro a leitura deste texto.

 

Júlio Marques Mota

Occupy LSX : a indignação avança em Londres

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Philippe Marlière

 

 

O movimento Occupy the London Stock Exchange (OccupyLSX – Ocupar a Bolsa de Londres) instalou-se no adro da catedral de São Paulo,  a 15 de Outubro. Cerca de 200 tendas, mais de 2000 de pessoas enchem a Praça Paternoster. O espaço ficou rapidamente saturado e um outro local foi aberto na Praça Finsbury. Reconstruída depois do grande incêncio de 1666, a nova catedral de Santo Paul não é uma igreja do povo: é o símbolo da Grã-Bretanha imperial e da família real (foi aqui que o príncipe Charles e Lady Diana se casaram).

 

Organizar-se para durar

 

Os movimentos de ocupação de lugares públicos são confrontados aos mesmos problemas e aos mesmos riscos: como organizar-se para se manterem, para durar? É necessário passar o inverno, aguentarem-se até à Primavera, dizem-me. De acordo com os processos já rodados e provados na Puerta del Sol ou no parque Zuccotti, OccupyLSX criou um espaço comunal, um lugar de vida para os seus habitantes e de encontro com os visitantes. Durante os feriados escolares de Outono, OccupyLSX convidou as crianças e os seus pais a vir partilhar a sua experiência durante uma tarde (Occupy Half Term). Para além das tendas individuais, encontra-se um espaço de meios de comunicação social, uma universidade popular, uma cantina, um posto de socorros e uma biblioteca.


Na era de Internet e dos tweets, esta fixação nos textos impressos pode parecer singular. A biblioteca é, de resto,  pouco fornecida, uma pálida imitação das 1200 obras recenseadas em Nova Iorque. Não se encontra-se ái nenhum escrito revolucionário: contei, avulso, Michael Moore, Stéphane Hessel, Isabel Allende, mas nenhuma literatura anárquica ou anticapitalista.


Realiza-se diariamente uma assembleia geral às 13 horas e às 19 horas. As propostas e textos são debatidos e aprovados por consenso, com uma excepção para as moções “urgentes”: estas são consideradas aprovadas se recebem 75% de votos. Os ocupantes insistem neste ponto: são votos realmente democráticos e que têm um sentido; ao contrário da paródia no Parlamento ou aquando das eleições. Alguns confiam que o movimento está mais amadurecido por considerações tanto de ordem democrática (como criar as condições de uma real participação dos cidadãos nos processos de decisão), como de ordem económica (crítica da relação entre os bancos e o governo). Michael Hardt resume a questão nestes em termos: “A indignação contra a ganância dos bancos e contra as desigualdades económicas é real e profunda. Mas o protesto contra a ausência ou contra a inadequada representação política é também igualmente importante”.


Como em  Madrid ou Nova Iorque, nenhum dirigente domina o movimento. Várias pessoas tomam a palavra em frente aos degraus da catedral: um velho anarquista, um artista, um jovem altermundista e um dançarino irlandês. Cruzo-me com um muçulmano em conversa  animada com um militante do Socialist Workers Party (trotskista); um coro de cristãos, jovens Espanhóis, um vendedor de jornais do Communist League, jovens assalariados, reformados, alguns universitários. Há por aali  estudantes que participaram na ocupação da minha universidade durante o último inverno para protestar contra o aumento das despesas de inscrição e propinas.

 

TINA – There Is No Alternativa –   nas mentalidades


Os actores de Nova  Iorque receberam o apoio de intelectuais e de jornalistas: Slavoj Žižek e Frances Fox Piven vieram à Zuccotti Park. Joseph Stiglitz fez igualmente uma visita bem referenciada. David Graeber, um antropólogo americano que ensina em Londres, foi o inspirador do movimento. Os seus trabalhos sobre os habitantes da Madagascar serviram de referência a Occupy Wall Street. A Betafo, ele descobriu uma população que praticava a democracia directa, sem intervenção do Estado (1). Universitário e anarquista, Graeber ajudou a pôr em pé o movimento. Logo que a ocupação começou, foi para lá para não cair no papel “de intelectual de vanguarda”, um modelo, um papel,  que rejeita. Os sindicatos de Nova Iorque exprimiram igualmente a sua solidariedade.


Em Londres, uma tal mobilização está ainda por assegurar. Não há um deputado trabalhista, não há um representante dos sindicatos do TUC, nenhum deles se  deslocou até agora à Praça Paternoster. Só Julian Assange, Peter Thatchell e Polly Toynbee (jornalista para The Guardian) foram vistos nestes locais.

 

 

(Continua)

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