A Universidade em Declínio a Alta Frequência – “O sistema de admissão mais equitativo às nossas faculdades de elite é fazer uma lotaria”. Por Natasha Warikoo

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

O sistema de admissão mais equitativo às nossas faculdades de elite é fazer uma lotaria

Natasha Warikoo Por Natasha Warikoo

Publicado por Parte II texto 15 Market Watch em 13/03/2019 (“The fairest admissions system for elite colleges is a lottery”, ver aqui)

 

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Getty Images

Uma lotaria poupará tempo e dinheiro a uma universidade quando confrontada com demasiados candidatos qualificados

Se os processos das admissões em Harvard nos ensina alguma coisa, é que há nos Estados Unidos mais jovens brilhantes e bem sucedidos, desejosos de uma educação de alto nível, do que lugares para os acolher. Lugares como Harvard e outras faculdades de elite selecionam estudantes de um viveiro de candidatos bem qualificados, capazes de seguirem os cursos, contribuir para a vida no campus e continuar a fazer grandes coisas depois da universidade.

O antigo presidente de Harvard, Drew Faust, disse uma vez que Harvard podia encher a turma “duas vezes com os melhores alunos“. E, no quadro da sua argumentação no que ficou conhecido como “o julgamento da ação afirmativa“, a universidade disse que também poderia encher a sua nova classe de cerca de 2.000 alunos quase duas vezes com alunos com notas perfeitas no SAT (Scholastic Aptitude Test) de matemática.

Como especialista em admissões universitárias, vejo uma solução simples para este desafio das admissões que não só poderia poupar às universidades o escrutínio sobre a forma como admitem os seus, como também poderia poupar-lhes muito tempo e dinheiro. Como sugiro no meu livro “The Diversity Bargain And Other Dilemmas of Race, Admissions, and Meritocracy at Elite Universities“, as universidades deveriam tentar experimentar uma lotaria de admissões para admitir estudantes.

O professor de ciências políticas Peter Stone argumenta que, quando há mais candidatos do que lugares e não há forma de distinguir quão merecedores são, a lotaria torna-se a forma mais justa de escolher os candidatos num sistema seletivo. Se alguma vez existisse uma universidade nesta situação, esta faculdade seria a de Harvard.

A lotaria de admissões que prevejo – que envolveria candidatos que atingissem um determinado limiar académico – ajudaria as universidades confrontadas com um grande número de candidatos qualificados, como Harvard, a admitir estudantes de uma forma mais equitativa. A lotaria atingiria dois objetivos importantes.

 

1. Tornar o processo mais justo

A chamada “justiça” das admissões de Harvard tem um significado simbólico incrível na sociedade americana. O grupo que processou Harvard por admissões baseadas na raça até se intitula “Students for Fair Admissions” (Estudantes para Admissões Justas). A coisa mais justa que faculdades como Harvard podem fazer é reconhecer que a seleção favorece inevitavelmente aqueles que têm recursos. Com efeito, quanto mais seletivas são as faculdades, mais privilegiados são os estudantes admitidos.

Uma admissão por lotaria enviaria uma mensagem clara de que a admissão se baseia significativamente no acaso, e não apenas no mérito, que é na verdade como as admissões funcionam agora – é que os estudantes pensam que se baseia exclusivamente no mérito quando não é. Mesmo as extensas análises dos economistas de topo, tanto a favor como contra Harvard no processo de ação afirmativa, não poderiam prever os resultados das admissões de um em cada quatro candidatos.

Por outras palavras, mesmo quando se constrói um modelo estatístico que inclui desde as notas de um candidato e os resultados do SAT até às profissões dos seus pais, em que estado vivem e muitos outros fatores, é difícil compreender as decisões de admissão. Isto sugere resultados semelhantes aos da lotaria.

Além disso, o atual processo de admissão sugere aos alunos que entram em Harvard que mereciam o seu lugar exclusivamente pelos seus próprios méritos – isto é, independentemente da riqueza dos pais, quer os pais tenham frequentado ou não a escola, e de quaisquer vantagens decorrentes das escolas secundárias que frequentavam que eles esperam terem entrado na decisão. Como demonstro no meu livro, a maior parte dos licenciados das universidades da Ivy League pensam que o processo de admissão nas suas universidades é justo e é a melhor forma de selecionar os estudantes.

Mas está bem estabelecido que aqueles que entram em faculdades como Harvard provêm de famílias mais ricas e mais instruídas do que os adolescentes em geral nos EUA. Eles também tendem a ser mais frequentemente brancos ou asiáticos. Assim, a menos que a sociedade acredite que o mérito não está distribuído uniformemente pela população, fingir que as admissões são meritocráticas faz parecer que os estudantes de elite são mais dignos do que aqueles que estão em desvantagem, quando a realidade é que eles apenas têm mais vantagens.

 

2. Poupar tempo e dinheiro

Uma lotaria de admissões pouparia às universidades recursos incríveis. Por exemplo, em Harvard, uma comissão de 40 pessoas, a trabalhar em tempo integral e remuneradas, decide em conjunto sobre cada um de entre as dezenas de milhares de candidatos quem é admitido em Harvard.

Mas se os estudantes qualificados forem admitidos numa lotaria, a universidade poderia simplesmente escolher nomes de um “chapéu” eletrónico, por assim dizer, poupando centenas de milhar de dólares em horas de trabalho. Poderia haver poupanças semelhantes também para outras universidades.

Uma lotaria também pouparia aos pais e aos adolescentes inúmeras horas de tempo e dinheiro e eliminaria muito stress à medida que tentam navegar num sistema de admissões cada vez mais competitivo. As admissões universitárias levaram muitos alunos do ensino secundário a esforçarem-se por atingir padrões de excelência cada vez mais exigentes, tanto no meio académico como extracurricular. Isto leva a níveis pouco saudáveis de stress e ansiedade para um número crescente de adolescentes.

Não estou a sugerir que o processo de candidatura seja eliminado por completo. Pelo contrário, as universidades devem refletir cuidadosamente sobre as qualidades que procuram nos estudantes. Uma qualidade razoável seria um nível básico de desempenho académico, de tal forma que um estudante – com os apoios disponíveis no campus – seja capaz de lidar com as expectativas académicas da universidade.

A fim de garantir que todos os jovens tenham uma oportunidade, estas expectativas e apoios deveriam acomodar os melhores estudantes das escolas secundárias de todo o país, incluindo as comunidades mais carenciadas e com menos recursos. As faculdades seletivas poderiam comprometer-se a satisfazer as necessidades educativas dos melhores alunos de todas as escolas secundárias, independentemente dos resultados do SAT desses alunos ou de outras medidas que os comparem com os dos seus pares de outras escolas mais ricas em recursos.

Além disso, as universidades podem defender que certos indivíduos ou grupos têm um estatuto especial – filhos de dadores ricos, atletas para equipas universitárias, músicos para a orquestra. Se esses estudantes são tão desejáveis que as faculdades não querem deixar a sua admissão ao acaso, esses estudantes poderiam ser dispensados da lotaria. O meu próprio instinto é descartar estas categorias especiais, mas elas não excluem uma lotaria. Com efeito, uma lotaria a par de disposições relativas ao estatuto especial tornaria claro o estatuto especial que certos candidatos têm, como ficou provado no julgamento de Harvard. Um estatuto especial pode também ser concedido para aumentar as oportunidades para grupos sub-representados, no interesse da diversidade do campus.

Algumas faculdades poderão ter relutância em ser as primeiras a adotar o sistema de lotaria para selecionar os seus candidatos. Essas faculdades deveriam considerar como faculdades como Bates e Bowdoin se tornaram as primeiras a ir à prova opcional quando se trata do SAT, muito antes de centenas de outras faculdades o terem feito. Mesmo assim, estas escolas alcançaram uma maior diversidade e mantiveram as suas taxas de sucesso ao mesmo nível.

Por outro lado, se muitas faculdades mudassem para uma lotaria de admissões, elas poderiam desenvolver juntas um sistema de “match”, semelhante ao sistema que coloca os estudantes de medicina nos seus programas de residência. Os alunos seriam primeiro classificados nas suas escolas de primeira escolha e, em seguida, o conjunto dos alunos que chegassem à barra de elegibilidade seria inscrito numa lotaria para a seleção dos alunos. Depois de feitas as primeiras escolhas, as lotarias para as segundas escolhas aconteceriam, e assim por diante. Este sistema também aliviaria o custo para as famílias associado aos estudantes que se candidatam a um número crescente de faculdades. Reduziria também os custos associados à avaliação do número crescente de candidatos devido ao número crescente de estudantes que se candidatam a tantas faculdades.

A luta em torno das admissões nas faculdades levou ao aumento dos custos, à ansiedade entre os adolescentes americanos e a uma perceção injusta do mérito como domínio exclusivo das elites. Mas esta situação pode ser evitada se as faculdades tomarem medidas corajosas no sentido de uma lotaria para selecionar os seus candidatos.

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A autora: Natasha Warikoo é professora associada de educação na Universidade de Harvard.

 

1 Comment

  1. O que tem de depreender-se é que, nos USA – mas não só – não há Universidades em número suficiente. CLV

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