
A espiral positiva que permite um aquecimento psíquico quando a criança aprendeu a fazer-se amar, pode também, transformar-se em espiral negativa. A vinculação à mãe processa-se em condições seguras em 65 por cento dos casos, no entanto, em 5 por cento é uma relação desorganizada provocando um desregramento que desestrutura a criança. Também um acontecimento ofensivo pode surgir, colocando em jogo as instâncias biológicas, emocionais ou históricas do psiquismo. As circunstâncias de um trauma não são, pois, excepcionais. Mas, quando uma rede é assim danificada, as possibilidades de remendar as malhas são numerosas.
A resiliência é constantemente possível, desde que a criança encontre um objecto que para si tenha significado. Entre os factores favorecedores, encontram-se as múltiplas vinculações, mas também os circuitos afectivos ou institucionalizados que envolvem o sujeito ou ainda a idade (que determina o nível de construção do aparelho psí¬quico). Estas dimensões assumem uma particular importância: a aquisição ou não de recursos internos, a forma como o trauma é assimilado e a oferta ou não de tutores onde se apoiar. A resiliência é um processo: não só para crianças que acumulam as situações que as anulam, mas a sua evolução tal como a vingança contra a sociedade ou a identificação com a sua própria tragédia, que se torna então um modelo de desenvolvimento e de reprodução. Contrariamente, a intelectualização, o humor, o empenho social e a criatividade são as vias reais que transformam o trauma em ressurreição e em emancipação relativamente ao sofrimento infligido transformado assim num novo sentimento de si positivo. A resiliência não é um catálogo de qualidades que um indivíduo possuiria. É um processo que, do nascimento até à morte, nos liga sem cessar com o meio que nos rodeia…
BORIS CYRULNIK .
Se Cyrulnick não tivesse tido a vida que levou, como relatado na Revista Brasileira de Psicanálise , nunca teria trabalhado sobre resiliência como conceito. No entanto, a sua vida foi uma tragédia que soube ultrapassar. Boris Cyrulnik, o meu colega de ensino na Maison de Sciences de l’Homme, em Paris, teve uma vida azarada. Sem resiliência, criada no segundo que salvou a sua vida aos cinco anos, não seria o homem aberto e simpático que eu conheci. Da mesma maneira que eu fui salvo do pelotão de fuzilamento quando visitava, por razões académicas, o Chile de Allende. Não sei o que ele, como criança, pensou. Sei o que eu pensei quando se levantaram quarenta fuzis para me assassinar. Havia uma mulher que amava, que fez o possível e impossível para me salvar, uma filha adorada e outra no ventre da mãe das minhas filhas. Contudo, pensei: “Por boa causa morro”.
Tinha sido enviado para observar a via chilena para o socialismo pelo meu Catedrático Sir Jack Goody (outrora prisioneiro dos nazis em Auschwitchz); a ele e a outros, devo a minha vida. Como ao meu recentemente falecido amigo, o Bispo Emérito de Talca, Chile, Dom Carlos González Cruchaga, imagem e lembrança vivas no centro do meu ser. Ao no ser fuzilado, a miha alma ficou baloma kiriwina, sem rumo nem destino. A minha fortaleza, definida por esse salvo Boris Cyrulnick, que eu considero um herói universal, como resiliência, salvou-me. Como havia acontecido anos antes com ele. É por isso que comparo as histórias, a minha simples, a dele mais complexa, um luto familiar do qual, como teria dito Alice Miller, nasceu um desenho, uma criação. Essa psicologia de etologia clínica que ela pratica com a qual tem salvo a vida e a dignidade a tantos. A capacidade de resistência de Boris nasceu de um trauma infantil, o que o leva a dizer com simplicidade que não é evidente que de uma infância infeliz venha a nascer uma vida miserável. Dá para comparar essa inaudita capacidade de construção humana, como diz no seu livro, com o romance Os miseráveis de Victor Hugo . Esses miseráveis não são pessoas pobres ou sem capacidade para emergir de uma vida sem destino, são, antes, pessoas capazes de usar o seu poder em prol de uma justiça mal entendida. Mal entendida, ao perseguir um ser humano que soube mudar a sua vida de pobre e ladro para a de um senhor não apenas de posse, bem como de ideias de justiça social clarividentes, capaz de lutar contra o poder absoluto sem rancor e com muita bonomia.
A resiliência é retirada do conceito grego oxymoron , essa forma de falar que envolve dentro da mesma palavra, conceitos contraditórios, como definido na nota de rodapé desta página. É deste conceito que Cyrulnick começa a criar as suas ideias de sobrevivência. Cyrulnik fala e escreve particularmente sobre o que viveu como experiência pessoal.
