A vida nacional continua invadida pelo espectáculo de julgamentos de figuras destacadas da política, dos negócios e da ribalta. Ele é o Face Oculta, ele é o caso Duarte Lima, ele tem sido o BPN (palpita que ainda vai dar muito que falar). A comunicação social debruça-se sobre eles avidamente, sem dúvida que com algum excesso. Não se contesta que é bom informar, até porque o acompanhamento destes casos propicia alguma luz sobre aspectos da vida nacional que será bom que sejam geralmente reconhecidos. Contudo torna-se sufocante abrir um jornal ou a televisão e deparar com as caras famosas, com os títulos bombásticos. E não será excessivo pensar que estes casos estão, por um lado, a ter um tratamento semelhante ao dado a assuntos frívolos como o divórcio da estrela de cinema ou a festa de anos de um personagem do chamado jet set. E a deixar na sombra centenas de coisas importantes, que deviam ser conhecidas. Por outro lado, o segredo de justiça (indispensável para uma averiguação segura dos factos) e os direitos tanto das vítimas como dos acusados poderão ser gravemente ofendidos (sem dúvida que o são não poucas vezes).
Uma matéria que é de todo o interesse ser do conhecimento geral é a da recapitalização dos bancos. Por motivos conhecidos, os bancos dominam a vida nacional e, muito por culpa própria, encontram-se em situação delicada. A recapitalização destina-se a ajudá-los a fortalecerem-se. Com o nosso dinheiro, claro. Mas os bancos resistem. Por respeito ao nosso dinheiro? Também é claro que não. É porque não querem o Estado (o papão) na administração dos bancos. Portanto o que querem é o nosso dinheiro, sem qualquer espécie de controlo. Nas suas mãos. Nas mãos deles, banqueiros. Não só os depósitos, como também os subsídios.. Os artigos do Júlio Marques Mota, os artigos que ele tem seleccionado para A Viagem dos Argonautas, o Eurointelligence enviado pelo Domenico Mario Nuti, informam-nos e analisam detalhadamente a situação. É aqui que vai ser decidido o futuro. Banca Pública ou Banca Privada?
Leia-se ainda o que escreveu no VidaEconómica de ontem, sexta-feira, MJCarvalho (pág.10). Após um série de comentários e observações sobre os acontecimentos na banca em Portugal em 1975, com observações pessoais e discutíveis à mistura, diz-nos o seguinte:
“Os bancos portugueses confessam implicitamente que não vão ser capazes de amortizar por inteiro no prazo de três anos os capitais a mutuar para efeito da sua recapitalização. Isto também deriva do facto óbvio de, por sucessivas”pescadinhas-de-rabo-na-boca”, a banca hoje não ter mercados sustentados ─ das empresas aos particulares, das operações comerciais às de investimento ou de mercado de capitais nada está adquirido ou estável. Só a banca dos cegos ou dos diletantes é que ainda não se apercebeu que algo de verdadeiramente substancial e estratégico está a mudar no relacionamento com todos os tipos e cada um dos clientes ─ a banca perdeu o estatuto de parceiro confiável pela razão simples de ter deixado de ter a autoridade moral para o aconselhamento credível. E isto por um processo paulatino, corrosivo e letal que também teve a ver com todos os produtos de lixo que vendeu ─ ao indexar maioritariamente e como política integrada de recursos humanos o bónus pela venda, perdeu o que seria o seu activo mais valioso: a confiança do cliente, quando este se apercebe que, afinal, o conselho, a proposta ou a orientação que recebe está muito mais ligada à remuneração extraordinária que se ganha ou se perde no negócio do que à defesa intransigente da relação com o cliente.
Será que ainda precisamos dos bancos? De bancos diferentes, com certeza. Bancos públicos, de gestão transparente, claro. Não de bancos públicos de nome. De todos nós, sim. Enquanto for preciso usar moeda nas transacções e capital para investimentos. Para construir uma nova Argos, daqui a uns anos, por exemplo.

