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O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 42 – por Raúl Iturra

 

No decurso desses trabalhos de verão, conheci uma rapariga, doce como o mel; perdido de amores pela recém retornada ao Chile, vinda da Europa, solicitei ao meu Senhor Pai que a pedisse em casamento (para mim, claro). Foi longa a espera, mas a minha persistência foi tanta, que ela acabou por dizer sim. E porque sim, casámos. Partimos para a Europa, onde prossegui os meus estudos em Antropologia, e, como antropólogo, deslocámo-nos de novo para o Chile quando aconteceu o assassinato do nosso Presidente e da sua via chilena para o socialismo.

 

Tivemos duas filhas preciosas e extremamente bem cuidadas, especialmente pela mãe, a minha mulher, que, um dia, ficou farta de mim e pediu-me o divórcio. As suas perspectivas eram, afinal, bem diferentes das do radical revolucionário, com quem casara, que vivia para a prática do Direito e Lei e das Ciências Sociais. O resto, não é a minha história.

Paradoxalmente, a minha história de vida não me parece minha. Assim, para me entender, entre o Id, o ego, o superego, as fantasias e as relações sociais e porque um dia disseram-me que podia falecer por causas neurológicas, apressei-me a escrever as minhas memórias e as lembranças das minhas ultra amadas filhas e as dos seus filhos.

O resultado dessa escrita intensa, apareceu como Mis Camélias – Recuerdos de Padres interesados, texto pensado para ser escrito pela minha pequena família. Não aconteceu. Pelo contrário, criticam-no duramente, apesar de ter ganho um prémio. Esse livro fez-me perder a família. Louvores na escrita, profunda tristeza na vida familiar, solidão das solidões. Gostaria, no entanto, de realçar que pedi licença aos interessados, ao enviar-lhes um exemplar para lerem, sugerirem, darem a sua opinião e, naturalmente, autorizarem a edição. Mas os meses foram passando e uma vaga de silêncio instalou-se por um livro não lido.

Como Etnpsicólogo, como sujeito de uma psicanálise de dez anos para ser etnopsicólogo, decidi auto analisar-me. Por não saber qual o erro, recorri a Freud e aos seus discípulos.

Dir-me-ão porquê Freud? Porque ele, tal como Copérnico e Charles Darwin, revolucionaram a forma do ser humano se ver dentro do infinito Universo. Para Sigmund Freud, as acções e os desejos não são fruto da vontade e da vaidade humana, mas sim do Inconsciente, esta nova maneira de pensar a psique humana, abalou o mundo científico. Ansioso na obtenção de respostas plausíveis para aplacar o sofrimento dos seus pacientes, enveredou pela doutrina de Charcot e utilizou a hipnose nos seus estudos sobre histeria. Muito embora os seus estudos encontrassem resistência na ala conservadora da Medicina, que via nas teorias freudianas uma ameaça à primazia do ser humano, Freud prosseguiu a sua linha de pensamento e descobriu que o ser humano é dividido entre o Consciente e o Inconsciente, lançando as bases da Psicanálise.

É interessante observar como ao comparar etapas da vida de si próprio com a da sua descendência é possível articular as suas descobertas com as experiências pessoais do psicanalista. Como a teoria que desenvolveu sobre o Complexo de Édipo, fundamentando-se na relação com o seu pai morto, recorrendo a uma linguagem metafórica e onírica. O conflito interior que Freud viveu, enquanto tentava penetrar no obscuro Inconsciente dos seus pacientes, temendo encontrar o inefável, o impensável, era, na verdade, receio de encontrar a sua própria essência. Esta questão, também é parte do conflito da minha auto-análise para entender o que foi desastroso na minha escrita de Mis Camélias.

Hoje em dia faço o possível e o impossível para defender que o complexo de Édipo devia ser virado do avesso: são os pais que precisam dos descendentes, especialmente quando a vida começa a ficar à beira do fim, na mais espantosa das solidões. Ou estamos no cume sem borrascas, como diria Emily Brontë, ou com borrascas por ficarmos sós e pensarmos ter feito tudo correcto na vida. Mas, Margaret Mitchell afirma, desde 1936, que o que não fica por escrito o vento leva. Eu não queria que o vento da vida levasse as minhas memórias, especialmente as mais queridas para mim, as da minha descendência.

Este livro, contrariamente ao Para sempre ticinco. Allende e Eu (no prelo), tem sido pesado. Passar pelo crivo da estrutura de personalidade, submetendo lembranças e emoções a teorias e autores que eu próprio analiso, tem sido duro. Não estou arrependido. É assim.

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