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Diário de bordo de 22 de Novembro de 2011


 


 

Entre as muitas frases que em Maio de 1968 se pintaram pelas paredes de Paris, havia uma exigindo que  se decretasse a felicidade, jáO truque recorrente dos políticos é pedir sacrifícios em favor de um futuro risonho para os filhos. Claro, que os mentirosos que se seguirem pedirão o mesmo. Podemos dizer que a política destes governos neo-liberais assenta numa felicidade permanentemente adiada. Porque o governo anterior deixou o País num caos, a felicidade fica para a próxima geração.

 

Passos Coelho que pode ser acusado de muita coisa, mas nunca de ser inteligente ou criativo, repete essa velhíssima rábula e, numa mensagem do seu mural do Facebook,  apela aos sacrifícios dos portugueses. Afirma que este é o momento de “reescrever o futuro dos nossos filhos”. A frase é tão oca que nem merece comentário. Respondia particularmente a uma mensagem de uma cidadã está a fazer economias e que “toma um banho por semana”, mas que não consegue equilibrar o seu orçamento familiar.

 

O primeiro – ministro diz ser impossível responder aos milhares de mensagens que lhe chegam de todo o mundo e, seleccionando duas delas, responde: “Desde que anunciei, no dia 13 de Outubro, as medidas mais duras do Orçamento de Estado para 2012, muitas têm sido as mensagens de frustração ou desespero que li nesta página. “Exmo. sr. primeiro-ministro. Votei no senhor e ainda acredito que está a fazer o melhor que pode e sabe. Preciso muito da sua ajuda. É sobre o meu orçamento familiar. Até aqui o ordenado nunca chegava ao fim do mês. Era com os subsídios de Natal e férias que eu conseguia equilibrar as finanças, pagar seguros, contribuições, IRS ou outra despesa extraordinária, como um par de óculos. Já cortei tudo… (…) Tomo banho só uma vez por semana, só acendo uma lâmpada, dispensei a mulher-a-dias, só saio no carro em casos extremos. Não sei mais onde cortar e o dinheiro não chega. Por favor diga-me o que hei-de fazer para poder continuar a pagar as obrigações ao Estado. Estou desesperada».

 

Passos Coelho responde-lhe: “Muitos de vocês estão assustados com o desafio que temos de enfrentar. Mas acredito também que, por mais que estes sacrifícios nos custem, sabemos hoje que não podemos mais fechar os olhos aos erros do passado. O momento de rescrever o futuro dos nossos filhos é agora e eu acredito que vamos consegui-lo”(…) As dificuldades existem e têm de ser enfrentadas. Mas vale a pena enfrentá-las e ganhar força para as ultrapassar. Trata-se também de uma oportunidade para fazermos as coisas de modo diferente para futuro. Estaremos não apenas a corrigir erros do passado mas sobretudo a construir uma perspectiva de futuro bem mais digna para os nossos filhos e para nós próprios”, “Juntos, com trabalho, vamos conseguir”.

 

Uma ajuda substancial chega da Madeira – nas iluminações de Natal e no fogo de artifício do fim do ano, Jardim vai gastar três milhões de euros  – passando a despesa para o exercício de 2012. Por coincidência ou lá o que seja, estes serviços são contratados por adjudicação directa a uma empresa de um ex-deputado do PSD. Três milhões de euros não serão nada se nos lembramos do montante da dívida, mas davam para muitos banhos!

 

Como é que nos querem convencer da razoabilidade dos sacrifícios, quando se continua a pactuar com o despesismo corrupto de Jardim? Perante os desmandos praticados, não faltariam mecanismos institucionais a accionar para o demitir. Sabemos que a demissão do presidente da Região Autónoma nada resolveria, pois muitos corruptos estão espalhados pelo aparelho de Estado – mas seria um sinal de que alguma coisa podia mudar. Coelho resolve de outra maneira – põe trabalhadores e pensionistas a pagar a dívida cujo montante estará em grande parte espalhado pelas contas bancárias de ex-ministros e deputados do PSD e do PS. À cidadã que se priva do seu banho diário deve consolar o facto de que esse sacrifício dá para algumas lâmpadas e foguetes no Funchal. E quando Passos Coelho fala nos sacrifícios  pelo futuro dos «nossos filhos», refere-se, por certo, aos filhos dos ministros e deputados.

 

Perante este espectáculo de degradação rotativa dado pelos governos do bloco central – estupidez, corrupção, falta de dignidade, apetece citar outro graffiti do Maio de 68:

 

 «Parem o mundo – eu desço aqui!»

 

 

 

 
 

 

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