PERÍODO SOARISTA
Filho de um padre e professor, João Soares, que chegou a ministro da I República e de Elisa Nobre, que se rendeu aos encantos laicos do clérigo, Mário Soares chegou a ministro, primeiro-ministro, presidente da República, eurodeputado. Também foi comunista fugaz, militante do MUD Juvenil/1945. Depressa se apercebeu de que não era homem para grandes ideais. Mais ganharia em ser homem com algumas ideias. Muito ganharia mesmo em ter uma grande ideia: instaurar um novo culto mariano, rivalizando com a devoção a Maria, festejada desde o séc. XII e padroeira de Portugal desde 1646. Ambição que só realizaria tornando-se trunfo de reserva da burguesia nacional e das potências ocidentais. Foi construindo, consequentemente, um palmarés de anti-fascista sóbrio e socialista gold.
O antigo regime depressa descodificou o seuestofo de opositor. Aplicou-lhe certas medidas de clausura e desterro, mas evitou penas de eterna segurança ou torturas que lhe desfizessem o nó da gravata. Descontado um apertão do tempo em que foi avaliado como hipotético revolucionário, a inteligência fascista e os seus algozes cedo se aperceberam de que o licenciado Soares não protagonizaria uma evasão temerária dos curros, não organizaria um levantamento de rancho nos quartéis, uma greve do salário mínimo no Barreiro ou da fome máxima no Alentejo, sequer um dia de pesado luto estudantil ou uma manifestação do 1.º de Maio. Os repressores tinham igualmente em linha de desconto que o licenciado fazia parte do elenco alternativo, conservado em banho-maria pelos Aliados do Atlântico Norte.
Havia mútua contenção. O regime até aliviou a secura protocolar. A relação tornou-se gradualmente cavalheiresca. A determinada altura, o licenciado passou a Senhor Doutor. Soares retribuiu. Da fixação de residência em São Tomé (1968-1969), trouxe o conforto do pide simpático. Pides de boas-maneiras nunca foram destacados para custodiar as vítimas dos espancamentos por turnos, do isolamento prolongado, em Peniche, Caxias, no Heroísmo ou nos Campos de Concentração do Tarrafal, Machava ou São Nicolau. Um agente de estimação não tem preço. Soares não poderia mostrar-se senão grato durante toda a vida. Em 1981, no Tribunal de Santa Clara, no decurso do julgamento dos assassinos de Humberto Delgado, cavaqueou efusivamente com Agostinho Tienza e Pereira de Carvalho, ex-dirigentes da PIDE/DGS, ante uma sala atónita, incluindo o colectivo de magistrados. Recorde-se que Soares foi advogado da família dogeneral sem medo. Recorde-se que Pereira de Carvalho foi o dirigente policial que recebeu MS, em 1970, na sede de António Maria Cardoso, dando-lhe oito horas para regressar a Paris, evitando, com esta abertura marcelista, detê-lo. Recorde-se que, na sequência da Revolução do Cravos, tempo de exaltação dos mártires do fascismo, devotos marianos plantaram a figura de Sua Excelência no parlatório da Prisão de Peniche, evocando a passagem do resistente pela masmorra.
Sucede que o filho do padre João não afrontou o fascismo ao ponto de merecer tão severa hospedagem. É natural que, consumado o projecto de instalação de uma Pousada de Portugal no corpo da fortaleza, o Pai da Democracia se abalance a reservar uma suite presidencial. Peniche era para casos particularmente sérios. E a respeito da comedida oposição muito se poderia rever. Recorde-se, a fechar o florilégio, que MS manteve contactos com o Governo de Marcelo, tentando uma abertura para a sua pessoa e os seus cortesãos nas costas do conjunto da Oposição Democrática. Recorde-se que, em 1969, depois de haver subscrito uma plataforma de unidade contra o regime, rompeu o acordo e avançou com candidaturas independentes às Legislativas desse ano. Recorde-se o direito à indignação de Armando Bacelar: Não lhe tremeu a mão, sr. dr.!
Após a Revolução de Abril, Mário Nobre Soares depressa deu sinais de descolagem da frente de esquerda. Cinco dias passados sobre o Dia da Liberdade,protagonizou o incidente do 1.º de Maio, abrindo caminho ao empurrão para apanhar um banho de classe trabalhadora. A agenda divisionista prosseguiria, desde os complots político-militares à sabotagem da Unidade Sindical, até à sabotagem e liquidação da Reforma Agrária. Esta contou com a deserção do Conselho de Ministros por parte dos socialistas, aproveitando o PPD para tomar o lugar de esquerda do PS, aprovando a alteração do regime de propriedade e exploração do latifúndio. Dentro do seu partido, além de se auto-suspender, num gesto de desafronta majestática, cortou com os maiores amigos, desde Manuel Serra a Salgado Zenha, de Rui Mateus a Manuel Alegre, nunca havendo perdoado a quem obstaculizasse o seu caminho. Foi transformando amigos em inimigos e inimigos em amigos. Foi cultivando cumplicidades de alto estrondo.
Lembre-se a caução do terrorismo de Spínola, o indulto a Ramiro Moreira, operacional do terrorismo, a condecoração do cónego Melo, mentor do terrorismo. Lembre-se que, em 1972, no livro Le Portugal bailloné /Portugal Amordaçado, acusou a Igreja de concubinato com regime de Salazar e, em 1975, solicitou ao patriarca de Lisboa, António Ribeiro, que mobilizasse as paróquias para a manifestação da Fonte Luminosa. Acordo religiosamente respeitado. Lembre-se também o seu apoio ao candidato Soares Carneiro, personagem da direita casernícola, contra Ramalho Eanes. Assinale-se o perfil de Estado nas referências a Cavaco Silva, Você não tem biografia,a Francisco Balsemão, um mestre-escola desastrado, a Nicole Fontaine, dona de casa. São também conhecidos outros episódios: verberou um juiz de Coimbra por não acomodar as leis num caso que lhe dizia respeito; o jornalista Lopes Araújo/RTP foi exilado para os Açores por mandar para o ar uma reportagem de protesto popular; deu um raspanete, estilo enxota-cão, defronte da Comunicação Social, a um agente da GNR, da sua escolta: Ó sr. Guarda, desapareça!; recebeu representantes de 270 associações de emigrantes/França/RFA, descalçando os sapatos e pondo os pés em cima da Mesa de Diálogo. Foi assim Mário. É assim Soares.
Para manter a corte, no activo partidário, governamental e presidencial, distribuiu cargos, favores, comendas e viagens; na fase de Senador da República, criou a Fundação Mário Soares, ligada por um cordão umbilical à fazenda pública, por onde já correram milhões de euros. Ideologicamente, não só proclamou, para que as centrais do capitalismo ouvissem, que meteu o socialismo na gaveta, como, na prática, a marca de água doseu exercício de poder se timbrou por cumplicidades, compromissos e alianças à Direita (1978/CDS/1983/PPD/PSD). O que nunca o impediu de dar larga a estribilhos esquerdizantes, adulando a rua, a arraia, nas horas de incerteza e de namoros multitudinários. A nível internacional, o homo nafarrensis mereceu o cognome de homem dos americanos. Só se lhe conhecem duas entidades a que jurou respeito e obediência: a ele próprio e aos USA. De resto, os USA, sempre que uma ditadura esgota o prazo de validade, por regra, têm preparado um soares para a transição de rédea curta. Basta rever o mapa da geopolítica. Ainda no que toca a alinhamentos internacionais, é de listar que, entre os seus favoritos e as suas amizades, se encontram personagens de referência: espiões-golpistas, genocidas-saqueadores, patrocinadores de esquadrões da morte, traidores de revoluções, usurpadores do Estado, corruptos foragidos à Justiça, como Frank Carlucci, Filipe González, Jonas Savimbi, Eden Pastora, Nicolau Ceaucescu, Andrés Pérez, Betino Craxi.
Na esfera económico-social, norteou-se pela recuperação capitalista, destruindo a Reforma Agrária, iniciando o processo de devolução de empresas (Mundet/Facar), dando o tiro de partida das privatizações e desnacionalizações e do proteccionismo de grupos, fazendo emergir, em contraponto, os salários em atraso, o apertar o cinto, a mãozinha do FMI/ lay off. Um empresário ultraconservador, Salvador Caetano, vendo-se na emergência de justificar o apoio a MS/Mário Soares contra FA/Freitas do Amaral, candidato natural da Direita, fez jurisprudência do deve-haver: Devo-lhe uns favores. Na mesma linha, o seu Governo financiou a catedral do megalómano e ultraconservador D. Rafael, bispo de Bragança. Foi neste quadro capitulacionista, classista e negocista que Soares fechou para balanço o seu 25 de Abril, mandou às favas as conquistas irreversíveis das classes trabalhadoras , engavetou o socialismo e anunciou a laicos e republicanos as aparições marianas da Europa connosco, o milagre das rosas com código de barras. Projecto que o poder real (económico-financeiro) formatou e que o poder formal (político-mediático) vendeu a eleitores, contribuintes e consumidores. Fraude, entretanto, às escâncaras: o poder económico-financeiro entrou no período de pilhagem abrupta de estados, empresas, salários e pensões e o poder político-mediático aí está para aplicar e revender o plano como medidas de austeridade para conter o défice. Défice provocado pelo poder económico-financeiro. Soares via, aplaudia e decidia em nome da esquerda democrática, em prol da Europa connosco e da Sua Glória.
Encerra-se o percurso com uma citação que poderá servir de lápide em qualquer cemitério ideológico. É óbvio que MS é credor de muitos preitos: é indubitavelmente digno de uma arca no Panteão de Santa Engrácia, de uma estatueta votiva num aparador da Casa Branca e de uma réplica de Pai da Democracia no Museu da República de Nafarros.
A seguir – período sacarneirista
