Caso, casus (termo oriundo do latim escolástico), deu lugar ao substantivo casuística, com o sentido específico de «parte da Teologia e da Moral que estuda os casos de consciência». Porém, numa acepção mais popular e ampla, ganhou o sentido de minuciosidade. E é nesta acepção que se pode dizer que a abordagem que a esquerda faz sobre o comportamento dos sucessivos governos do bloco central é casuística, ou seja, os partidos de esquerda, as centrais sindicais, os movimentos sociais, vão, caso a caso, atacando o poder e nessa visão parcelar estribando a sua luta. A privatização da rede pública de televisão é o caso actual. É por muitos referido como se fosse o primeiro agravo deste executivo à Constituição da República. Mário Soares é, em sentido lato, considerado um homem de esquerda. Em entrevista de ontem ao Diário de Notícias, o ex-presidente da República diz não acreditar que o Governo avance com a concessão da RTP, perante a possibilidade de ser inconstitucional. E considera que a proposta de privatização, tal como foi anunciada na semana passada pelo economista António Borges, é “uma pouca vergonha”.
Classificar como” pouca vergonha” a negociata que se prepara com a venda da RTP é uma prova de lucidez, mas não acreditar que Passos Coelho e a sua equipa avancem com a concessão por ser inconstitucional, é uma ingenuidade (e se há coisa que Soares não seja, é ingénuo…). Pois este governo não deu já provas de que violará a Constituição quantas vezes os interesses dos seus patrões o exigirem? Se há político em Portugal responsável por tudo o que se está a passar, Mário Soares é um deles; ou melhor, é o primeiro da lista. Foi ele quem abriu a porta à onda neoliberal. Alegando o perigo do socialismo totalitarista, abriu a jaula do capitalismo selvagem (designando-o por «socialismo de rosto humano»). Não parece a famosa virgem no bordel; assemelha-se mais ao porteiro de um cabaré rasca que avisa os clientes – «olhe que aquilo lá dentro é uma pouca vergonha!».
E a primeira coisa que Mário Soares devia lamentar era a “oposição” que o «seu» partido está a fazer a este bando que (mercê das mentiras de Sócrates) se guindou ao poder. Só a visão casuística do fluir dos acontecimentos, permite que esqueçamos o que foi o governo do Partido Socialista e o que foram os anteriores governos do PSD, não esquecendo o primeiro-ministro Cavaco Silva. Só a falta de uma visão abrangente da história política das últimas décadas permite que se eleja Aníbal Cavaco Silva duas vezes como presidente da República .
A esquerda, ao alinhar nesta análise casuística da realidade, vai contribuindo para que o poder neoliberal se instale e vá, caso a caso, usurpando os poderes democráticos que pensávamos que o 25 de Abril conquistara. Cada novo escândalo branqueia a «pouca vergonha» anterior. Esta forma casuística de apreciar a política é a grande arma da direita. E o António José Seguro já se prepara para, aproveitando o desgaste do grupo de oportunistas que está no poder, trepar ao poleiro. E as «poucas vergonhas» suceder-se-ão.

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