(Continuação)
Soube tudo na Central de São Paulo…. o Senador saiu a noite passada no expresso-noturno que vai mudar depois de quarenta horas de viagem até a estação de Santa Maria no rápido São Paulo-Porto Alegre. Se o senhor pegar agora às sete e meia a saída desse rápido certamente encontrará o Senadorem Santa Maria.
Agora viajo tranquilo, desde que deixei São Paulo neste rápido que corre pelo interior paulista na direção do Paraná. Mais do que nunca me parece uma corrida maravilhosa; o trem, o sinto mais confortável do que os muitos outros que me serviram nesses últimos dias. Sinto como se viajasse numa ferrovia imaginária, com as potentes locomotivas elétricas que devoram milhares de quilômetros e quilômetros. Fala-se tanto na implantação, em muitos percursos servidos pela Ferrovia Nacional, do sistema alemão da alta velocidade; mas já me parece de usufruir do sistema, pois este rápido corre tanto que os fios elétricos vistos da janela não fazem as habituais curvas e semi-curvas para os olhos que tudo admiram de dentro do trem. É tanta a sensação da velocidade que as andorinhas vôos teimosos paralelos ao trem voam voam, mas eu não posso ver mais que o lampejo de suas asas que se perdem fulmíneas, como que arremessadas para o alto pelo vôo maior da locomotiva silenciosa e dos vagões repletos de passageiros serenos.
Vou pelo interior de São Paulo recoberto de plantações vastíssimas e de fazendas que carregam bois cavalos para um encontro com o trem.
Sei que vou reencontrar o meu amigo; e na tranquilidade dessa certeza retomo meus pensamentos que lhe estão sempre ligados. Posso pensar com uma nova perspectiva, até mesmo sobre a maneira como há mais de cinco anos vivo a minha carreira parlamentar. Nada me é fácil nesta escolha de vida, mas tudo dependerá também da minha natureza mais profunda. Tenho a tendência acentuada à solidão; mas amo igualmente o diálogo e a convivência. Sinto forte predisposição aos sentimentos fortes e duradouros, mas sinto igualmente a necessidade de tantas vezes sair do espaço mais imediato dos contatos com as pessoas amadas. Então me isolo e encontro grande satisfação em estar só, em outros espaços, nos quais encontro outras pessoas, com as quais estou bem, mas como se fosse num momento de passagem. Depois sinto necessidade de retornar à convivência dos verdadeiros sentimentos. E assim passo a minha vida que, já me parecendo certamente intensa, todavia a sinto projetada num indefinido futuro que não distingo.
A política é para mim a síntese de comportamentos que me permitem conviver com as insatisfações sem cair na solidão completa. Porém, Pasqualini sempre me advertiu para que eu não transformasse jamais a minha atividade política em simples compensação das insatisfações sentidas.
Pasqualini me disse
a atividade política pode ser vista de várias maneiras e de várias perspectivas, todas elas honestas. Pode ser a estrada para a exaltação de nosso desejo de perfeição, enquanto pessoa, com o perigo de transformar um tal comportamento em centralização radical da elevação pessoal, com perda da referência principal que é a gente que nos delega o exercício do poder político.
pode ser também – e esta outra perspectiva tem muita correspondência com a primeira – pode ser também o empenho para a assunção do poder. Enquanto tal, não é precisamente um defeito. O poder político é principalmente a possibilidade de decisão positiva para o bem comum, sendo por isso mesmo, passível de justo empenho para a conquista e detenção. Mal é transformar tal empenho em conquista interessada somente ao pessoal e ao particular, ao grupo e a metas incivis.
a atividade política pode ser tudo isso e mais coisas. Mas, em verdade, deve ser principalmente prestação de serviços à gente, ao povo; um empenho absolutamente e sempre conduzido pela consciência de democracia. E por isso mesmo, deve confundir-se o mínimo com os problemas subjetivos de quem a exercita.
Pasqualini me disse
a comunidade internacional age muitas vezes em modo demasiadamente convencional, procurando esquecer determinadas realidades nacionais que não sempre podem adaptar-se a convenções aparentes. A razão de tais comportamentos convencionais está quase sempre relacionada com o desejo de hegemonização política. Pode-se até mesmo dizer que as razões econômicas participam relativamente em tais ações. Porém, muitas vezes, esses convencionalismos atuam em áreas explosivas, com grande perigo para a segurança mesma da humanidade. Como é o caso das atividades atômicas.
as cinco potências nucleares declaradas e ativas – Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França e China – se movimentam na reinvidicação da não-proliferação atômica sem, todavia, exprimir sempre com clareza a intenção política de chegar um dia ao desarmamento total. Ao querer impor a linha internacional da deposição atômica, essas potências muitas vezes ignoram legítimos e pacíficos interesses nacionais quanto a utilização da energia nuclear. Naturalmente para países, como o Brasil, que desde sempre aderiram e afirmaram a política do desarmamento atômico total e afirmaram a política do uso da energia nuclear somente para finalidades pacíficas, tal problema é relativo; isso, naturalmente, desde que a pesquisa brasileira não sofra coações absolutistas. Mais difícil é a posição de países que ainda não aderiram ao desarmamento total e que vivem em áreas de tensão. Esses países muitas vezes não podem responder às cinco potências atômicas sempre em correspondência com a vontade delas, pois a inércia no desarmamento que caracteriza os Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França e China, conduz de certa maneira os outros do grupo que não aderiram ao pacto internacional anti-atômico – Índia, Paquistão, Israel, Irã, Iraque, Coréia do Norte e Líbia – a posições mais ou menos conflituais. Aos verdadeiramente pacifistas, como o Brasil e Argentina, cabe viver no absurdo «clube dos 14» que, invés de festas e alegrias, exprime somente paradoxos e angústias. Para o qual a única certeza é a presença de um provocante «botão vermelho» em procura insone de dedos-detonadores indefiníveis.
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