(Continuação)

Quando o trem sobe a montanha e se esforça para superar as alturas, certo da planície que o espera, enquanto sobe se transforma num compasso ternário de continuada intermitência tam tam tamtarantam tam tanrantam tarantam tam tam
Cheguei ao Rio que era já noite. A Central, com todo o seu imponente arranha-céu vibrava como sempre com o movimento de milhares de passageiros. Fora, a cidade se preparava para mais uma noite de intensidades. O tráfico que vinha do centro para a zona norte passava diante da estação, rumando pela Avenida Getúlio Vargas em muitas direções; no sentido contrário, carros e ônibus ultrapassavam a praça da República para confluir no estreito que parte para a zona sul, na procura do Flamengo, Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon. Silêncio, mais pressentido que captado pelo olhar que se movimentava para o sul e para o norte, a metropolitana conduzia milhares de passageiros nas duas direções. Eu fixava todo esse movimento, escutava o estordoante rumor nos espaços imensos e os gritos dos vendedores diante da estação me davam a dimensão da minha cidade que eu via como se fosse pela primeira vez.
De repente retornei à minha ansiedade. Meus olhos se levantaram para o alto da torre da Central e o grande relógio multiplicado nos quatro lados retângulares da grande arquitetura me indicava que eram as dez e meia da noite. Agitado, corri para o interior da estação na procura do diretor-geral e do chefe da estação…. o Senador chegou aqui hoje pela manhã. Como sempre que o encontro conversamos cordialmente. Ele estava se preparando para pegar o rápido Rio-São Paulo das 13. Me disse que gostaria de chegar em tempoem São Paulopara pegar o expresso-noturno que vai para o Rio Grande do Sul. O senhor pode chegarem São Pauloe depois tomar um rápido para o Sul. Seria bom se pudesse partir daqui logo com o noturno, mas infelizmente ele está lotado completamente. Assim sendo, somente o expresso de amanhã de manhã. Não, não posso fazer nada, me desculpe. Eu gostaria de ajudá-lo, mas realmente não tenho nenhuma condição de encontrar-lhe uma cabine, e nem mesmo um lugar sentado.
Eu me angustiava em saber que, finalmente, meu amigo estava próximo e ao mesmo tempo podia afastar-se mais uma vez. Eu tinha de pegar o noturno para São Paulo e assim chegar pela manhã, ainda em tempo para correr como o rápido atrás do noturno que certamente conduz Pasqualini para o Sul.
O chefe da Central, diante de mim, repetia a sua impotência. Foi então que me lembrei de que o responsável pelas Relações Públicas da Ferrovia Nacional era o meu amigo Mauritônio Meira…. é verdade, ele costuma ficar até tarde no seu escritório. Vou telefonar para lá e dizer que o senhor está aqui.
Encontrado o bilhete, saí correndo para pegar o noturno de São Paulo.
Pasqualini me disse
meu caro e jovem amigo, eu amo a tradição rural, a memória da cultura da terra, das formas de uma tradição que continua na base de nossos sentimentos e de nossa inteligência, mas amo igualmente a dimensão urbana. Pode parecer um paradoxo, mas não é assim, pois acredito que a cidade seja uma dimensão rica. Penso e repenso, de encontro aos embalos de minha memória, a esse quase enigma de um político que está para desaparecer enquanto ativista; mas não temo o enigma. Pelo contrário, me sinto tomado num embalo sedutor.
os centros urbanos vivem da multiplicidade de suas componentes que fazem da cidade moderna o centro das melhores e mais válidas mudanças. Porém, muitas são as componentes das cidades brasileiras, e não sempre são tomadas numa plena consciência. Para que essas cidades possam transformar-se em contínuo processo de modernidade, é preciso que as mudanças a que assistem se realizem no melhor equilíbrio das muitas, muitíssimas contribuições de suas componentes. É indispensável que a cidade seja democrática em todas as componentes estruturais.
O viajar em trem é como ocupar sem mudar o espaço que te parece único, mesmo nas mudanças incessantes que a corrida estabelece.
Quando estás num trem e a paisagem se modifica com o passar do tempo e com a constante velocidade, tudo permanece como em imutável espaço pessoal e o modificar-se continuado do espaço exterior é como e somente um reflexo do espaço viajante.
Ao lado, no meu olhar, paralelo ao trem corre veloz o rio. Correndo, rio e trem se integram e eu vivo a integração com as águas sem me afogar.
Para o viajante a corrida do trem é como se fosse um estar parado, pois nele nada muda e como ama a viagem repousa na alternância sem fim de paisagens que a marcha do trem lhe oferece.
Agora nuvens cotonadas baixaram tanto que encobrem os montes morros colinas desta terra verde luminosa. Para o viajante é como subir para as nuvens e não lhe parece que essas sejam mais baixas do que costumam ser as nuvens. Mas ele também sabe que o trem continua na marcha de trilhos e estações. Apenas ele está nesses eventos de nuvens e trem.
Reencontro o Paraíba seguindo na noite que me leva paa São Paulo. O rio continua correndo para sua foz distante, enquanto eu sei que a minha corrida é outra. Talvez não consguirei dormir esta noite porque acompanho o trem que entra e sai das luzes intermináveis que se acendem pela estrada numa ansiedade que me dá a sensação de estar fora da velocidade, sempre mais além dela, como querendo chegar logo e antes do trem que corre corre, cobrindo os nomes das estações, fugindo de possíveis passageiros novos, pleno, cheio, pronto somente a parar no lugar: São Paulo.
Corre o trem e passa por pontes, ladeia cidades adormecidas, supera carros que velocizam as marchas nas auto-estradas paralelas, corre corre. É noite somente noite. Passa Barra Mansa. Mais que ler o nome, alcanço a captação de sons fugidios… nsa. Depois Cruz…, Cruzeiro. cida… Apare…
Debruçado no meu leito oscilante sinto que esta etapa da viagem está para esclarecer tudo. Vou chegarem São Pauloe então saberei com certeza em que trem viaja o meu amigo e para onde ele está indo e como eu vou poder, finalmente, encontrá-lo. Taubaté. Já estouem Taubaté. Passamas horas e a noite. Tudo me parece possível. Esta é a viagem para o encontro, me diz o trem que corre sem parar, como se corresse para mim, somente para mim que sinto os olhos que se fecham, pesados, enquanto muitas luzes relâmpagos silenciosos compassam o correr do trem.
(Continua)
