VIAGEM COM PASQUALINI- 21– por Sílvio Castro

(Conclusão)

 

Esses são pensamentos dolorosos que me acometem enquanto contemplo o rápido que, mais do que nunca, parece querer colocar-me diante do amigo abandonado.

                  

A minha viagem está para chegar à conclusão. Agora não sei como confrontar-me com Pasqualini, o que dizer-lhe, como mostrar-me aos seus olhos. Mas desejo que tudo isso aconteça logo, como está para acontecer. Faltam finalmente poucas horas. Já estou perto de Santa Maria. Marcelino Ramos, Erechim, já passaram. Estamos próximos de Passo Fundo. Depois será a última corrida; passando Júlio de Castilho, Cruz Alta, chegarei finalmenteem Santa Maria.

 

 

 

              

O viajante está sentado sozinho na sua poltrona da 1ª. classe. Os assentos são confortáveis largos longos, cada um com dois lugares. Adiante e atrás estão muitos outros e entre eles o espaço aéreo é amplo. O viajante pode ver a poltrona que lhe está ao lado e muitas outras adiante.

 

O viajante sente a viagem como alguém que está só consigo mesmo. Para ele a paisagem é alguma coisa de completo, porque recebe toda sua atenção. Mesmo quando o viajante se deixa levar vagamente por pensamentos sem destino, a paisagem permanece nos seus olhos.

                  

Assim o viajante está sentado sozinho na sua poltrona do trem que corre e mantém sempre a velocidade nas linhas retas da planura.

 

O trem entra numa cidade. Tudo se faz um só coisa: casas ruas paisagem. O trem diminui de volocidade, como se caminhasse pela ruas. Nos olhos do viajante a paisagem não mais corre e diminui. Até que o trem entra na estação, desliza entre plataformas, pára. Cessam viagem e paisagem.

 

 

Estou entrando com o meu tremem Santa Maria. A estação, já a vejo a menos de quinhentos metros. A locomotiva se aproxima lentamente da estação, toma a plataforma número 1 e pára.

 

Devagar, como se já agora não mais quizesse ter chegado, pego nas minhas coisas e me preparo para deixar o vagão já vazio. Todos os passageiros já desceram. Desço eu também. Com os olhos quase velados por uma emoção indefinida, fixo a plataforma, toda a estação ainda feita como se o seu tempo fosse um outro, diverso daquele de hoje; vejo os carregadores de malas, homens e mulheres que caminham, outros que estão sentados em bancos de ferro, ao lado de colunas também de ferro que sustentam o teto que protege a plataforma nº 1 da chuva e do sol. Tudo me aparece como se eu estivesser numa estação irreal.

 

Caminho lentamente na direção do gabinete do chefe da estação. Ele agora está diante de mim e escuta a minha pergunta. Sim, senhor, o Senador está aqui.

 

Sinto uma forte emoção, mas o chefe da estação me olha com tristeza – hoje, quando o expresso-noturno de São Paulo chegou, depois que todos os passageiros já tinham partido e o trem estava completamente vazio, procuramos o Senador que devia estar na cabine prevista. Quando vi a porta da cabine ainda fechada, bati. Mas, ninguém respondeu. Então eu a abri. O Senador, vestido como para repartir logo, estava recostado no seu leito, como se dormisse. O Senador morreu tranquilo e todo preparado, como sempre gostava de apresentar-se à gente. Agora ele espera o trem que o levará de volta para a sua casa.

 

 

 

A viagem de ida é como o céu aberto numa estrada que corre sempre sempre na planura.

 

A viagem de volta é como o céu aberto numa estrada que corre sempre sempre na planura, mas que não se revela.

 

 

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