A vertigem dos acontecimentos em curso na União Europeia faz com que às vezes se esfumem situações tão significativas como muitas que, dia após dia, fazem as manchetes dos jornais e as selecções de prime time das televisões.
As transições na Grécia e em Itália de regimes de democracia tutelada para os de tecnocracia gerida directamente de Bruxelas (Comissão Europeia), Frankfurt (Banco Central Europeu, BCE) e Washington (FMI) têm vindo gradualmente a ser decifradas através de dados biográficos de ministros e colaboradores dos governos dos senhores Lucas Papademos e Mario Monti.
O objectivos destes governos são conhecidos: eliminar os últimos entraves criados pelos mecanismos democráticos para que as curas de austeridade, a liquidação das dívidas, a salvação dos bancos e a liberdade especuladora dos mercados financeiros se harmonizem com o mínimo de sobressaltos possíveis.
Percorrendo as carreiras dos senhores Monti, Papademos, Dragui, o novo governador do BCE, e de outros dos seus colaboradores fica a saber-se que todos eles trabalharam – eventualmente ainda trabalham em acumulação de tarefas – para o banco de investimento norte-americano Goldman Sachs, não só atolado até aos telhados nas manigâncias que levaram à crise de 2008 como também em processos de gestão bastante obscuros na Europa que degeneraram na crise de algumas dívidas soberanas como a da Grécia. Razões pelas quais esta passagem da democracia à tecnocracia em países da União Europeia pode ser ilustrada com frases bem portuguesas como “deixar a alcateia de lobos a tomar conta das capoeiras” ou “convocar pirómanos para combater incêndios”.
Indo mais fundo apura-se também que entre os tecnocratas chegados ao poder sem eleições nem candidaturas ainda restam uns vestígios de política. Na Grécia, por exemplo, o ministro das Infraestruturas e Transportes de Papademos, o senhor Makis Voridis, é um político. A sua presença não corresponde, porém, a qualquer recaída democrática.
Voridis, conhecido como “o Martelo”, é dirigente do partido fascista LAOS, que apoia o governo, e ganhou o cognome ao longo de uma carreira pilotando e comandando grupos neonazis que convergiram nesta organização, espalhando o anti-judaísmo, a negação do Holocausto, a caça a estudantes e militantes de esquerda. Numa das suas emblemáticas fotos, o senhor Voridis empunha não um martelo, mas um machado, numa caçada a estudantes democratas na Faculdade de Direito de Atenas, em 1985. A relação estreita com o fascista francês Le Pen assegurou-lhe depois o fato político que o levou ao estrelato no LAOS e daí ao governo tecnocrático e salvador de banqueiros do senhor Papademos, à custa da miséria e do desemprego da população grega.
Ignora-se se a senhora Merkel e os senhores Sarkozy, Barroso, Van Rompuy já tomaram conhecimento destes desvios políticos à pureza tecnocrática. Na verdade, se os bancos forem salvos e as dívidas pagas, que importa mais ministro neonazi, menos ministro neonazi?
