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O 1º Comício da LUAR – por Fernando Pereira Marques

 

                                                  

                                                                                           

 

 

Após o 25 de Abril, durante algumas semanas, aqueles que já eram da organização  e entretanto se tinham reagrupado – enquanto novos aderentes iam chegando espontaneamente – discutiram, vivamente, sobre o que fazer: continuar? entrar no PS (defendiam uns quantos)? desaparecer? Prevaleceu a primeira opção e em torno dela havia que começar a trabalhar visto considerar-se que a revolução não estava consolidada e que importava aprofundá-la. A LUAR ainda tinha um papel a desempenhar na nova situação existente.

 

Consequentemente era necessário ir para o terreno, mostrar que existíamos, construir um programa. Decidiu-se que o primeiro comício seria em Faro, no Algarve natal do Palma e de vários outros,  onde já se estava a formar um núcleo. Nunca tínhamos montado nada do género. Por isso, ao ver estas imagens, espanto-me de como se conseguiu tudo o que se vê: militantes a venderem o jornal, as faixas com palavras de ordem, o material sonoro e  aquela imensa gente, a maior parte jovem, que acorreu entusiástica.

 

Já não me recordo quem mais interveio, além do Palma e de mim. Mas sei que também nunca antes tínhamos falado para público tão vasto e em semelhantes circunstâncias. Daí o nervoso, o não saber onde pôr as mãos, a insegurança. Do que disse só me ficou na memória uma alusão aos miúdos que em cima do palco se amontoavam. Agora, ao ouvir-me, espanto-me sobretudo com a ousadia daquele “Nós os trabalhadores…”. Que essa ousadia me seja ressalvada considerando a sinceridade, a generosidade, mesmo a ingenuidade com que todos nós falávamos e agíamos. Não tínhamos estratégias ocultas, calculismos pessoais ou de grupo. Nenhum de nós estava a ver-se ministro ou o que quer que seja. E talvez por isso mesmo, porque transparecia esse modo como nos situávamos no torvelinho de então de um país e de um povo que se descobriam livres e pareciam reencontrar-se, àquele comício seguir-se-iam dezenas de outros – aliás, preferíamos chamar-lhes “sessões de esclarecimento” -, um pouco por todo o lado, e sempre com salas calorosas e a abarrotarem. Pois, para além do efeito da auréola romântica e aventurosa do Palma e da própria sigla, do teor do que dizíamos, connosco também andariam, ajudando a animar e a transmitir a mensagem, como ali em Faro, o Zeca, o Fanhais, o Vitorino (frequentemente com os irmãos), algumas vezes o Sérgio Godinho.

 

Tenho para mim que um dos maiores fracassos do pós 25 de Abril  reside no facto de  não ter havido quem governasse potenciando todo o manancial de esperança então despertado, transformando-o em força de mudança e de reconstrução do país. Talvez se tivesse conseguido dar um salto qualitativo rompendo de vez com os “sentimentos, hábitos e preconceitos”  – para utilizar palavras de Antero, na sua célebre Conferência do Casino – herdados de séculos de Inquisição, de pobreza e de atraso, de dezenas de anos de ditadura. Isto  para que, trinta e sete anos volvidos depois do retorno à Democracia e do Comício de Faro da LUAR, outros horizontes se nos abrissem que não estes estreitos e tristes com que hoje nos deparamos.  

                                             

 

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