“Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar”.
Fernando Pessoa – Poesias.
O amor à pintura, evocando um título de Claude Roy, explica e sintetiza não apenas o conteúdo da mais recente exposição de Dorindo de Carvalho, mas também o nosso encontro hoje e o meu diálogo com a sua obra sob o signo dos seus (e meus) Mestres que alimentaram a sua obra e a minha paixão e reflexão já de algumas décadas.
O gesto que na pintura de Miguel Àngelo inaugura a criação do mundo, glosado na primeira pintura deste conjunto, foi igualmente por mim incluído numa versão meio ingénua do paraíso, uma pintura de juventude. Não o sabia talvez, mas o que assim começava era um longuíssimo périplo pelos meandros da Arte, fonte de um saber único que a imagem revela e esconde, num eloquente e indecifrável silêncio. É nessa espécie de labirinto iluminado, no espelho imaginário dos sonhos plásticos e das suas sombras que hoje se cruzam os nossos passos.
A pintura ao espelho da pintura no caso de Dorindo, a pintura ao espelho das palavras, no meu caso, num assumido percurso de crítica de arte inseparável da poesia. As palavras não criam uma realidade paralela, elas são antes a própria realidade, pretendem captar e fazer permanecer a frágil cintilação das imagens, a sua luz boreal que se revela após a grande noite da alma.
Também para Dorindo o amor à pintura reflecte uma espécie de eclipse que se manifesta nos fundos negros que parecem assombrar as formas, que deles se libertam para cintilar com ainda maior esplendor. Este profundo negrume tem certamente um elo com a própria natureza da condição humana, com o destino do homem inseparável do destino das imagens, destas imagens. Do nada desta opacidade surge o alado infinito das linhas, uma sinfonia de uma pureza e de uma depuração inauditas, nascidas do rigor e do mistério, do rigor alimentado pelo mistério. Os gestos e as linhas do pintor sublinham a essência anímica, a metafísica das imagens intemporais que alimentaram o imaginário ocidental.
As figuras, todas elas ícones da história da arte acompanham com a sua presença hierática, caso do rosto de Mona Lisa de Leonardo da Vinci, a gestação de uma geometria secreta, uma gramática de formas bem contemporâneas, que não são um cenário e muito menos a emanação da sua esfíngica presença, traduzida em termos plásticos.
As geometrias secretas, as linhas que atravessam meteoricamente as telas vão acabar muito longe dos seus limites, num infinito insuspeitado, são elas próprias uma presença, a presença mais forte de todo este conjunto ainda que ele envolva as esmagadoras evocações de muitas obras primas da humanidade. Estas obras primas oscilam entre o drama em Goya, Picasso ou Bacon, a exaltação em Matisse ou Modigliani, o lirismo de Chagall, percorrem grandes marcos da arte do Ocidente, de Botticelli a Rembrandt e Vermeer, de Cézanne e Van Gogh a Kandinsky, Klee, Miró 1893, Dali e Adami, sem esquecer Malhoa e Portinari , índices da cultura de língua portuguesa.
Sobre o negro brilham os astros da linguagem secreta da escrita geométrica do pintor, com os seus tons quentes ou a frescura de azuisem cascata. Astro sem rotação, imagens algo apocalípticas neste génesis a que assistimos, onde a criação da arte de todos os tempos parece inaugurar o limiar de um nova era. Ou impotente, assinalar o termo de uma civilização que vive de imagens que perderam o sentido de um reencantamento amoroso da Vida. As personagens das pinturas representadas surgem-nos como espectadores de uma aventura de que fazem parte, de uma travessia de prodígios à descoberta de uma luz perdida com os alvores
da civilização.
Na esteira do painel “Começar” de Mestre Almada, Dorindo dá forma nesta sua audaciosa exposição a uma geometria secreta que parece libertar a imagem e a sua tradicional ligação ao visível, no Ocidente, de todos os seus limites. E é na ancestral e antiquíssima noite de uma consciência que ignora o seu laço com o invisível que brilham, primeiro o esplendor das imagens, ícones da aventura do olhar no Ocidente e depois a pura e voluptuosa linguagem das formas arquetipais e das linhas que nos conduzem a um infinito desconhecido, a um novo destino da Arte e do humano.
