O ARGONAUTA DORINDO CARVALHO NUMA EXPOSIÇÃO ANTOLÓGICA

 

 

 

Dorindo Carvalho / por  CRUZEIRO SEIXAS

 

(…) tantas recordações ocorrem! Trata-se de uma vida! E a minha admiração vai cada vez mais para quem segue até ao fim um determinado caminho. Uma vida inteira é pouco para aprofundar uma ideia.

Conhecemo-nos em Angola, eu com a minha infinita sede de África e Dorindo obrigado àquela guerra fora do tempo, como todas as guerras aliás o são. Aquela guerra foi uma muito dura experiência, e embora distante no tempo nunca será demais referir hoje, na prevenção de qualquer outra que surja, apoiada, como sempre, nos «mais nobres princípios».

Da aprendizagem daquela guerra ou daquela África, ou por dom natural, há neste homem um lado humano que muito me toca. E no entanto devo esclarecer que, durante os já referidos longos anos desde que terminou a guerra, apenas duas ou três vezes nos encontrámos. Nem sequer acompanhei todas as suas exposições, mas sempre reconhecerei que se trata de um trabalho honesto, desculpando-me, pois a palavra caiu em desuso.

(…) poderei dizer que, se há algumas figuras acima de Dorindo no campo da pintura, igualmente se afirma muita gente enfeitada de genialidade.

(…) Neste tempo, absorvente, confesso a minha enormíssima confusão; me parece comovente que alguns saibam sem hesitação o que fazer em todos os momentos, estando como eu apinhados na extrema incomodidade desta falta de ESPAÇO para o silêncio e para a distância. Será necessário olhar com os olhos bem abertos para os que perfazem uma obra. Mas guardo a esperança de que em qualquer lugar, o mais obscuro, um génio nasça neste momento.

Cruzeiro Seixas


 

Dorindo Carvalho: «O Sentido Trágico dos Limites» / por  JOSÉ FERNANDO TAVARES

 

…A obra de Dorindo Carvalho, mercê dessa discrição e desse silêncio de que sempre se fez rodear, embora já tivesse sido objecto de reflexão por parte de alguns dos seus pares de geração, merece um olhar mais atento por parte daquela crítica mais imparcial perante o jogo das influências e das estratégias de sedução, de modo a que os mais variados públicos possam compreender a importância, a originalidade e o alcance dessa obra silenciosa, mas já monumental, de um nome importante da arte portuguesa do século xx.

José Fernando Tavares

 


 

Dorindo Carvalho e o mundo como ele o vê  / por URBANO TAVARES RODRIGUES

 

Dorindo Carvalho talvez seja, acima de tudo, um cáustico gravador de grotescos.  Nesse domínio produziu alguns magníficos quadros e desenhos, absolutamente originais e que, no entanto, podem fazer-nos pensar num Jorge Vieira, nas suas peculiares deformações do real e até por vezes em Botero, pelo seu gosto da vitalidade e da espessura. Mas Dorindo é um experimentador, que não se fixa numa aventura estética, num processo, numa maneira.

Como se se procurasse sempre e, encontrando-se em estilhaços de escolas e tendências, dos quais se apropria, passasse por uma decomposição das formas próximo da abstracção para regressar a uma plena figuração lírica, de cores quase estridentes e grandes superfícies lisas. São dessa fase as suas ceifeiras, o seu Alentejo visto em azul e ouro ou em restolhos de tórrido calor.

Em quase todos os momentos maiores, a pintura de Dorindo é social, carrega consigo, na força do traço, na violência de certas formas, mais até do que nos motivos, o povo, a aspereza do trabalho, a escura canga dos dias pobres.

Não que a arte de Dorindo seja muito explicitamente política, mas porque a sua mente e a sua mão falam a linguagem da forja de Vulcano, o feio torna-se belo na transmutação que esse fogo opera nas realidades cruas do barro condenado, dos forçados da cidade.

A Venezuela proporcionou-lhe o contacto com outro imaginário, a visão de corpos e flores eufóricas, a imagem viva e explosiva do sofrimento e do rancor de uma humanidade sujeita à fome e à exclusão e que se atordoa com ritmos e cantares.

A América Latina palpita na pintura de Dorindo Carvalho e nas suas poderosas figuras que às vezes gritam.

O desenho gráfico, vocação e modo de vida, atinge então, mormente em capas de livros, e ilustrações, uma dimensão quase brutal de revolta, que se traduz em musculaturas agressivas, maquinarias monstruosas, símbolos e alegorias revolucionárias.

Dorindo Carvalho está medularmente ligado (…) á memória de Abril que viveu, nas grandes alegrias e nas decepções amargas.

A sua obra variada e apaixonada espelha tudo isso.

Urbano Tavares Rodrigues

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