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A POESIA UNIVERSITÁRIA E A GUERRA COLONIAL (5) – por Manuel G. Simões

(Conclusão) 

 

Uma outra cantiga de amigo, das mais conhecidas e de algum modo estudadas da lírica medieval galego-portuguesa, serve de modelo explícito a uma composição e parece ter inspirado uma outra, com o aspecto curioso de ambas terem o mesmo título (“Cantiga de amigo”) e de terem sido publicadas no “Juvenil”, suplemento semanal do Diário de Lisboa, o que parece determinar, como se compreende, uma maior adesão, por parte dos poetas jovens, ao tópico da ausência: na guerra colonial ou noutros lugares de desamor. A cantiga que desta vez funciona como intertexto é a do prolífico trovador Nuno Fernandez Torneol, Levad’, amigo que dormides as manhanas frias, considerada o único exemplo de alba da lírica galego-portuguesa e que, segundo o modelo canónico provençal, devia traduzir a separação dos amantes. A partir desta cantiga modelou João Clemente, estudante universitário, o poema publicado no “Juvenil” do citado Diário de Lisboa (nº 673, de 19/5/1970) e que aqui se transcreve: Ó meu amigo que não dormes nas manhãs frias todas as aves do mundo de amor diziam alegre ando eu Ó meu amigo que não cantas nas man hãs cheias todas as aves do mundo na dor são feitas alegre ando eu todas as aves do mundo de amor diziam do teu corpo e do meu se lembrariam alegre ando eu todas as aves do mundo na dor são feitas do teu sonho e do meu seriam feitas alegre ando eu. Trata-se, como se observa, da recuperação de um modelo, de tal modo que o poeta resolve apresentar, como epígrafe, o primeiro dístico e o refrão do conjunto de Torneol. Mas desde logo o adapta a uma nova semântica, trnsformando a forma “dormides” do cantar medieval na forma opositiva “não dormes”, isto para acentuar a vigilância ideológica do amigo. Partindo desta oposição e considerando que João Clemente não pretendeu explorar a riqueza psicológica do modelo, o poema abre-se agora ao anúncio de uma ausência, sugerida sobretudo no terceiro dístico (“do teu corpo e do meu se lembrariam”): o amigo, que não dorme, vê-se também impedido de cantar; as próprias aves participam da dor da ausência e tornam-se, deste modo, no símbolo do ideal comum, da sonhada liberdade (“do teu sonho e do meu seriam feitas”). E quanto ao refrão, mera transposição do intertexto “Leda mh and’eu”, e sua influência na geometria do poema, o contraste entre alegria e amargura parece querer exorcizar a incerteza de um presente envenenado sobre o qual se projecta a expansão do discurso. O outro exemplo de “cantiga de amigo” que, de certo modo, se inspira na cantiga de Torneol é ainda uma glosa do motivo da ausência, embora aqui se distancie de um modelo específico para evidenciar o resultado de contaminações várias, memória poética de uma tradição cultural. É de autoria de Diana Barroqueiro, também ela estudante universitária, e foi publicado igualmente no “Juvenil” do Diário de Lisboa (nº 528, de 11/7/1967): Olhei-me com sede na manhã fria e só tinha mãos que o mar esquecia Morrerei donzela e sozinha Toquei-me um calor de corpo macio e só tive mãos para um mar vazio Morrerei donzela e sozinha E só tinha mãos que o mar esquecia nessa onda morta amigo não via Morrerei donzela e sozinha E só tive mãos para o mar vazio na onda lassa nem um barco esguio Morrerei donzela e sozinha Nessa onda morta amigo não via rumarei meus passos na areia fria Morrerei donzela e sozinha. O primeiro verso remete-nos para a cantiga de Nuno Fernandez Torneol pela referência a “manhã fria”, mas o resto da composição segue uma linha narrativa que evidencia um bem elaborado jogo de combinações verbais, utilizando o cânone do paralelismo, umas vezes perfeito, outras assimilando o sentido, com variação de forma (paralelismo conceptual, na terminologia de Eugenio Asensio). A composição de Diana Barroqueiro elege mais uma vez o mar como signo funcional, aqui omnipresente na expansão do texto, cujo centro absoluto é desempenhado pelo verso no qual parece confluir o seu significado profundo: “nessa onda morta amigo não via”, a que corresponde, no esquema canónico de iterações, a variante sinonímica “na onda lassa nem um barco esguio”. A negatividade que resulta da procura ansiosa da protagonista põe em evidência a sua insuportável solidão relativamente à ausência do amigo, conduzindo o discurso para a amargura do refrão (“Morrerei donzela / e sozinha”) de ritmo seco, breve, martelante, a sublinhar os ecos seguramente traumáticos. Resta-me referir ainda um exemplo paradigmático de outra ausência, esta bem mais aguda porque se refere à morte e sua representação simbólica. Trata-se do poema de Orlando Cardoso, também ele estudante universitário, publicado no nº 3 de Esteiro, revista cultural da a.e.i.s.t., de Lisboa, em Abril de 1968 (p.28): meu pai meu amigo meu amor da guerra nós somos um exército de fantasmas varados noite e dia sem culpa mataram-me não aqui onde caí mas aí onde te puseram no peito uma medalha com o valor preciso da minha vida E a uma dupla morte se refere o texto, a de “aqui” e a de “aí”, sendo para o sujeito mais humilhante a de “aí” (“onde te puseram no peito uma medalha/ com o valor preciso da minha vida”) pelos ecos de uma iconografia celebrativa do luto, o que significa a perda/morte da memória. Esta revisitação da lírica medieval determina, como se viu, a ressemantização de motivos e temas dos cancioneiros mas com marcas que atestam um sistema de ressonâncias na tradição poética colectiva. É o produto de uma opção ética e estética, num preciso contexto histórico-político que lhe serviu de motivação e que estimulou o engenho dos diversos poetas. E não deixa de ser significativo verificar que este fenómeno se produz sobretudo em autores jovens, mais profundamente vinculados ao problema de uma separação provocada por uma guerra que, não obstante a retórica imperialista (ou talvez por ela), era inegavelmente impopular e sentida como ruga no pulsar racional do país.

 

Referências bibliográficas

 

Eco, Umberto (1971), Le forme del contenuto, Milano, Bompiani. Melo, João de (1988), Os Anos da Guerra, 1961-1975. Os Portugueses em África. Crónica, Ficção e História, Lisboa, Círculo de Leitores. Melo Neto, João Cabral de (1998), Prosa, Rio de Janeiro, Nova Fronteira. Ribeiro, Margarida Calafate (1998), “Percursos Africanos: a Guerra Colonial na Literatura Pós-25 de Abril”, in Portuguese Literary & Cultural Studies, 1, pp. 125-152.

 

(Publicado em Rasegna Iberistica, Veneza, número 93, Abril de 2011)

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