A POESIA UNIVERSITÁRIA E A GUERRA COLONIAL (4) – por Manuel G. Simões

(Continuação)

 

Formas dos cancioneiros medievais e dos romances tradicionais ou “géneros” paralelos encontram-se igualmente em Praça da Canção (Coimbra, 1965), de Manuel Alegre, aluno da Faculdade de Direito de Coimbra, ao repropor frequentemente o motivo da ausência como, por exemplo, em “Como ouvi Linda cantar por seu amigo José” (pp. 88-89), que remete para a conhecida cantiga de amigo de D. Dinis, “Ai flores, ai flores do verde pino”, transformando agora o modelo intertextual e conduzindo o novo texto para uma ambiência que não é exclusivamente amorosa através de elementos referenciais cujo suporte ideológico transfigura o motivo, degradando-o. Mas seja como for, e ainda que não tenha sido respeitado integralmente o cânone das cantigas de amigo, estamos perante a tentativa de transferir fórmulas estruturais dos cancioneiros (repetição de versos, paralelismo imperfeito – ou heterodoxo -, mas de qualquer modo presente), como no caso de “Romance de Pedro Soldado”, onde de novo é legível o tópico da partida “num barco da nossa armada”, partida cuja expansão textual vai desatando os fios duma situação de constrangimento (“nem é de Pedro essa rota / dos barcos que vão à guerra”, p. 93) até atingir as fronteiras do trágico: Soldado número tal só a morte é que foi dele. Jaz morto. Ponto final. O nome morreu com ele (p. 94), com a despersonalização ou matriz invisível (mas indivisível) da própria identidade. A este poema seguem-se, no citado volume, as duas conhecidas sequências do horror e do desastre (Nambuangongo, meu amor e Três canções com lágrimas e sol para um amigo que morreu na guerra), epopeia às avessas que convoca o elemento mnésico e o desígnio histórico, como no último poema da segunda sequência, “Toada do vento africano”, que antecipa de algum modo a construção do romance Jornada de África (1989). E continuamos em Coimbra para referir a colectânea Poemas Livres 3 (de 1968), que reflecte, de maneira aguda e crítica, através da polifonia dos vários discursos, a consciência de uma guerra absurda. Deste modo Eduardo Guerra Carneiro (1942-2004), aluno da Faculdade de Letras de Coimbra, retoma ainda o motivo da ausência dos amigos e da incerteza da sua errância (“Horas vieram”), contrapondo-os, porém, aos que já não partem, simplesmente por terem morrido na guerra: Horas vieram certas horas chegaram com amigos certos Sei lá onde agora Sei que partem os amigos e se vão para longe Não sei deles Viajam alegres sem dinheiro certo Outros que não vão morrem na guerra que nos fere e dói que mais não seja por ser guerra em vão (p.24), E Luís Guerreiro (n.1939), também aluno da Faculdade de Letras de Coimbra, constrói um texto ainda no âmbito semiótico do mar como modelo de representação e cujo título (“Épica falseada”) é indicador preciso da desmitologização do imaginário português: No país da ferrugem move-se a nau caravela antiga de pólvora e ferro […] Pelo espólio geográfico pela terra estranha no alto dos mastros desenha-se a guerra (p.69). E aqui se explicita o que o sujeito pressente como “crime geral” que investe o “mapa do corpo”, reflexo da “aventura armilar/ …/ transcrita a sangue” e que conduz à ideia de perda irremediável: “o país fenece” (p. 69). É, de certo modo, a prolepse do discurso depois elaborado em Guia de Salto (Coimbra, 1974), produto de uma experiência, dolorosa mas consciente, da recusa da guerra colonial para enfrentar a travessia do deserto, isto é, o exílio. Poemas Livres 3 insere ainda cinco poemas de Fernando Assis Pacheco, três dos quais (“O que fica em Balacende”, “Rio Quilolo” e “Outro nome para as noites”) veiculam, através da hermenêutica da memória, uma reflexão sobre o vivido no teatro da guerra de África, aspecto que se retomará organicamente em Catalabanza Quilolo e Volta (de 1976, texto inicialmente publicado, como se sabe, em 1972, com o disfarce vietnamita de Câu Kiên: um Resumo) onde o primeiro poema é glosado com outro título: “No caminho:Balacende” (p. 16). E a mesma colectânea insere ainda um poema de Manuel Alberto Valente, aluno da Faculdade de Direito de Coimbra, curiosamente intitulado “Cantiga de amigo”, um dos exemplos mais evidentes de relação intertextual, servindo de intertexto a conhecida cantiga de amigo paralelística “Ay eu, coitada!”, atribuída quer a Sancho I de Portugal, quer a Alfonso IX de Leão mas, com mais probabilidade, a Alfonso X de Castela. Refiro aqui esta composição para relevar a função da lírica medieval na produção poética de década de 60, sobretudo da cantiga de amigo, pelas possibilidades de veicular, através do motivo do afastamento/ausência e numa rede de conotações de ordem sócio-cultural, as razões dessa ausência. Neste contexto, Manuel Alberto Valente faz uma glosa de “Ay eu, coitada!”, recuperando o tópico da dor pela ausência do “amigo” e transformando o refrão “Muito me tarda/ o meu amigo na Guarda!” em “Que dura sorte/ o meu amigo no forte!”. É evidente que o lexema “forte” não pode deixar de remeter o leitor para nomes de lugares de memória histórica da guerra colonial: os Fortes de Caxias ou da Trafaria foram tristemente célebres como espaço de detenção de militares acusados de manterem contactos com os movimentos africanos de libertação. Isto quer dizer que, embora o texto não revele uma referência directa relativamente à guerra, o mesmo se pode ler, com toda a pertinência, como um exemplo de alusão indirecta, sem que isso implique, a meu ver, uma distorção da exegese crítica.

 

(Continua)

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