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Como escrever em suporte digital? (Resposta ao comentário de Paulo Rato) – por Carlos Loures

Paulo Rato discorda da afirmação do «Diário de bordo» do dia 17 – “Novos meios, novos suportes, exigem novas formas de escrever.” Não entende que a escrita em blogues seja diferente da praticada noutros meios, nem aceita o termo suporte para definir a plataforma bloguística. – «não altero a minha linguagem por falar na rádio ou na TV, escrever em papel ou num blogue; altero-a, sem dúvida, em função dos destinatários da minha “mensagem”». (…) e, quanto a suporte, « parecer-me-ia mais correcto falar de “meios de transmissão”: » (…) «Não me parece pertinente transpor para a análise literária uma expressão muito usada em relação à pintura e ao desenho»..

 

A palavra suporte não se me afigura merecedora de grande discussão. Gente qualificada, nomeadamente docentes universitários na área da codicologia, define o livro (por exemplo) com «suporte estruturado da escrita». E refere-se também ao papiro, às tabuinhas de cera ou ao pergaminho, como “suportes de escrita”. A escrita em computador é designada por «suporte digital». Usar o termo nas artes plásticas, não impede que se aplique noutras áreas – arquitectura, engenharia, filosofia ou linguística.

 

O Dicionário Etimológico, de José Pedro Machado, regista o verbo suportar, do latim supportare «trazer de baixo para cima, transportar subindo; suportar, suster». E reforça com uma abonação das Cantigas de Santa Maria em que Afonso X usa o verbo soportar, em acepção semelhante à que usaríamos hoje. Parece-me pertinente o uso da palavra para designar o que suporta, sustenta, aguenta, as diferentes formas de escrita. “Meios de transmissão” não estaria mal, embora seja uma expressão mais adequada à televisão, à rádio… Não é divergência de monta.

 

Indo à questão central, a da adequação da escrita ao suporte, sempre entendi o «conceito de evolução das mentalidades» como conceito académico que passou para a linguagem corrente convertido em falacioso axioma. Dá, a quem se fique pela síntese, a ideia de que as novas gerações são mentalmente mais evoluídas e permite a qualquer idiota sentir-se superior a Goethe por ter nascido 250 anos depois. Digo isto para acentuar que, em termos de qualidade, não me parece que haja qualquer evolução sensível entre a escrita de Homero, Shakespeare ou Hemingway – grandes escritores de épocas tão distantes. Mas se falamos de modos de fixação da escrita, há diferenças evidentes – num contexto de cultura oral, a poesia grega era divulgada pela recitação de aedos. Eles eram o único meio de transmissão. E quem criava sabia que entre a obra e o destinatário existia esse intermediário, sujeito a falhas de memória, a maior ou menor riqueza de linguagem gestual, a inflexões da voz… Shakespeare precisava de ter os mesmos cuidados por a sua escrita se destinar a ser representada.

 

Ernest Hemingway era fotografado escrevendo à máquina. Consta que não usava manuscrito prévio. Apenas apontamentos. Por meados do século XX muitos escritores criavam directamente nas máquinas.. A um escritor português ouvi dizer que os seus livros eram escritos pela sua Olivetti portátil – escrevia a primeira frase e depois a máquina se encarregava do resto… Uma boutade, mas que nos diz muito sobre o apego do escritor a um dado sistema de escrita – há quem só consiga criar com caneta de tinta permanente e há quem só escreva poesia com rollerball negra… Entre o escritor e o leitor há o livro. Essa circunstância tem necessariamente influência na maneira de escrever.

 

No tal “diário de bordo” também se diz que as pessoas trazem para os blogues os seus hábitos jornalísticos, académicos, literários (e a afirmação que o Paulo faze, confirma-o) – um atavismo semelhante ao que fez com que os primeiros automóveis imitassem as carruagens puxadas por cavalos, com estribos e lanternins laterais e outros elementos inadequados ao novo meio de transporte… Notas de rodapé ou de pé de página em blogues, são como estribos em automóveis. Estão numeradas em função da página – mas ficam penduradas porque no blogue não há páginas. Porém, ainda dizemos que estamos a paginar um artigo ao transpô-lo para a plataforma bloguística.

 

Um blogue não é um jornal. A forma de escrever vai ser influenciada por este novo meio de difusão. O Paulo e a maioria dos bloguistas, eu incluído, escreve nos blogues como noutro meio – o que não significa que isso seja acertado – Os folhetins foram a forma ficcional adoptada pelos jornais do século XIX. As telenovelas são a maneira de se contar uma história na televisão, embora o objectivo seja afim – provocar dependência.. A Internet, o que é e o que virá a ser, exige também formas próprias. Em folhas de papiro, em tabuinhas de cera, em pergaminho ou papel, usando pena de pato, rollerball, computador ou Remington, sempre houve quem produzisse obras-primas. O suporte não influencia o resultado. O que afirmei foi que o suporte condiciona a maneira de comunicar. Escolhendo dois meios de transmissão caros ao Paulo, diria que escrever teatro radiofónico é diferente de escrever uma peça para a televisão.

 

Escrever num jornal ou num blogue também o é. A higiene da leitura ou grau de legibilidade, diferentes no monitor e no papel, devem ser levada em linha de conta; usar parágrafos curtos, nos posts especializados (economia, filosofia, literatura…) evitar o jargão respectivo, etc. Em suma, dizer o mesmo por uma forma de escrever diferente. Um dos princípios básicos será o de não escrever textos demasiado longos. Pelo que, por hoje, páro aqui.

 

Continuarei este tema noutro post.

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