Acordo Ortográfico ou Aborto Ortofágico? – Paulo Rato responde a Sílvio Castro

Caro Sílvio,

 

Estou em completo desacordo com o teu entusiasmo. Antes de mais, por razões que referes: as bases políticas do Acordo, quando as únicas admissíveis seriam as linguísticas, já que a Ortografia deve servir para indicar ao leitor a pronúncia correcta de cada palavra. E não, ao contrário, para induzir em erro os leitores que não conheçam a palavra que lêem. Muito menos deveria confundir-se ou misturar-se com qualquer desígnio político, ainda para mais, muito mal avaliado. Aliás, a única maneira de conseguir evidenciar a enriquecedora diferença das normas usadas pelos diversos grupos de falantes de uma mesma língua, geograficamente dispersos (neste caso, no território da lusofonia), seria… o Desacordo. Por isso, chamo a essa coisa “Aborto Ortofágico”, pois está (já!) a “devorar” a correcta pronúncia de muitas palavras, pelo menos em Portugal.

 

Segundo: Angola e Moçambique ainda não aprovaram o Acordo, pelo que não é possível considerá-lo legalmente em vigor. Terceiro: não é verdade que a melhor imprensa escrita de Portugal (do Brasil, não sei) já tenha adoptado as novas regras, sendo exemplos jornais de referência como o “Diário de Notícias” e o “Público”. Infelizmente, o “Jornal de Letras” não conta, porque pertence ao grupo Impresa, e a aplicação do “Aborto” foi imposta a todas as publicações do grupo, por influência, creio, do José Carlos Vasconcelos, que tem uma concepção assaz distorcida e beata do que significa a amizade Portugal-Brasil e, mesmo, em minha opinião, do que é e será a lusofonia… Muitos escritores, de várias gerações, não o aplicam, nem querem aplicar…

 

Na prática, e tal como eu previra (apesar de não ser um especialista), as alterações não serviram nenhuma das normas utilizadas pelos países lusófonos, tendo os PALOP sido completamente ignorados (apesar de representados na comissão abortiva). Nos meios de comunicação que aplicam o AO (sigla muito útil, porque abrange as duas acepções, a dos seus mentores e a minha), por imposição empresarial ou governamental, tem-se assistido às maiores confusões, de que um dos exemplos mais ridículos é o facto de quase todos os seus jornalistas terem desatado a designar por “espetador” (lê à portuguesa!), em vez de “espectador”, quem assiste a um “espetáculo” (será uma exposição de espetos?)… sendo induzidas em erro, por arrastamento, pois, em Portugal, a maioria dos falantes pronunciam o “c” de “espectador”. E já fui informado, por alguns dos meus ex-colegas, do facto de terem surgido, entre locutores da Antena 2 (o canal cultural!), dúvidas sobre o modo de pronunciar este termo: se “espectador”, se “espétador”, se “espetador”!… O que significa que pessoas que têm uma razoável formação cultural ficaram baralhadas e, quando a Administração da actual RTP, SA impôs o uso do novo “acordo”, não foram capazes de o interpretar, nem – sequer – lhes ocorreu que, sendo “ortográfico”, o que deveriam alterar (se quisessem, digo eu, pois jamais aceitaria que me impusessem administrativamente o uso de uma “ortografia” proclamada como nova, mas eivada de malformações genéticas) seria o “modo de escrever” e nunca o “de falar”! Se isto acontece neste “meio”, o que sucederá com a maioria das crianças e com estudantes estrangeiros (mesmo brasileiros)?

 

Os “acordantes” ter-se-ão, hipoteticamente, encerrado na armadilha da sua (pouco inteligente) “erudição”, mantendo-se olimpicamente distantes do nível de conhecimento (e capacidade de o utilizar) da esmagadora maioria das populações que o seu trabalho deveria servir, se não tivessem como objectivo (eventualmente, único) satisfazer uma encomenda política. O “hipoteticamente” só consta do período anterior, porque uma outra possibilidade subsiste: a de se tratar de uma comissão de imbecis (ainda que, porque me é doloroso aplicar essa caracterização a alguns dos intervenientes, me incline, em certos casos, para uma atitude de indiferença, face às inatendíveis características do “encargo” – o que não deixa de traduzir uma inaceitável irresponsabilidade).

 

Em vez de se preocuparem com uma ortografia que facultasse a correcta pronúncia da língua, em todas as suas variantes – já que ignoraram em absoluto quaisquer orientações etimológicas (que também não são, no caso, a minha principal preocupação) – os autores do Aborto decidiram complicar, baralhar, semear dúvidas e incrementar a confusão: p.e., o hífen que se utiliza, e bem, no “há-de” dos falantes de Portugal, significa uma diferença prosódica em relação aos falantes do Brasil que, e muito bem, escrevem “há de” (nos PALOP nem vale a pena falar…); e bem teriam feito se, em vez de roubarem o trema aos brasileiros o tivessem, antes, devolvido aos portugueses: assim, não teríamos “reputados” jornalistas a pronunciarem, na mesma notícia, “secúestro” (como se diz no Brasil – onde se escrevia, bem, “seqüestro” -, mas não em Portugal) e “sequestrado”, com os “es” mudos, como se pronuncia em Portugal, mas não no Brasil! Também, por aqui, se deveria passar a escrever “argüido”, “bilingüe”, etc., de modo a clarificar, até para o menos informado dos leitores, a pronúncia deste tipo de grupos silábicos.

 

Não vou repetir as razões porque considero o Acordo, cientificamente, uma anomalia caótica, mal equacionada e pessimamente resolvida. E, sobretudo, desnecessária! Já o disse e escrevi inúmeras vezes. Um facto que dá que pensar é que não há (que eu saiba) acordos para o castelhano, o francês, o inglês, ou qualquer outra língua, além da nossa – o que não parece incomodar minimamente os utilizadores dessas línguas… E o que me dá gozo, como leitor, é apreciar o talento e a erudição de um Vásquez Montalbán quando, nos seus livros “sul-americanos”, utiliza, nos diálogos, o “falar” próprio de cada país, com os seus termos específicos, os seus modos de tratamento, a sua peculiar prosódia, deste modo situando habilmente o leitor num outro ambiente, em circunstâncias outras, que não as que lhe são geográfica e socialmente mais próximas. Algo que, a partir de agora, se o “Aborto” for acatado, nenhum escritor lusófono poderá fazer, até porque o leitor perderá o acesso aos apetrechos necessários para determinar, sobretudo nos casos em que o que lê não passa de uma das inúmeras variantes admitidas pelo “Acordo” para a escrita da mesma palavra, a sua origem geográfica (e literária, já agora, integrada num passado, numa história que também conta!) Outra coisa me incomoda nisto: quem fabricou o acordo preocupou-se pouco com os povos e seus falares.

 

Ter-se-á ocupado, sim, como em ocasiões anteriores, de resguardar a correcta pronúncia de palavras menos utilizadas (e muitas são), para o uso exclusivo de uma elite erudita (mais vasta a pretensa – e pretensiosa – que a real) que, deste modo, mais facilmente se “distingue”, sem esforço intelectual sério, das “massas”… Daqui, sim, deveriam partir as únicas razões políticas passíveis de ponderação, num trabalho do qual, de qualquer modo, reitero a inutilidade e a ambição tola (e, apesar do que afirmas, em meu entender, com seu quê de totalitário) de transformar em aterro o que, ou é terreno irredutivelmente acidentado ou irreversivelmente infértil.

 

Suponho que sabes que há, em Portugal, um vasto movimento de oposição ao “Aborto”. Em http://ilcao.cedilha.net/ poderás inteirar-te de outros argumentos, além dos meus. Muitos deles, decerto, com fundamentações científicas bem mais claramente expostas do que eu alguma vez conseguiria. Tal não significa – atenção! – que me curve, respeitosamente, perante os títulos académicos dos perpetradores do Aborto Ortofágico. Professores universitários incultos (apesar de “eruditos”) e pouco inteligentes, foi coisa que não me faltou, que os deuses me valham! Um grande abraço.

3 Comments

  1. Não tenciono aplicar o Acordo. Não lhe vejo qualquer utilidade. As diferentes maneiras de falar português, que são uma riqueza do idioma, essas sim, criam diferenças grandes e que nenhum acordo conseguirá ultrapassar – a sintaxe, o campo semântico dos vocábulos, nada disso ficará resolvido pelo AO. No entanto, não partilhando o acolhimento jubilatório do nosso Sílvio Castro, também não acompanho o catastrofismo do Paulo Rato. Acho que portugueses, brasileiros, angolanos, todos os que falamos português, o vamos continuar a usar como usávamos. O AO é uma vitória dos burocratas que nele vislumbram simplificações a nível do software e coisas assim. As petições serão inúteis, porque a decisão está tomada. E depois circulam argumentos contra o AO que, pela sua fragilidade, se transformam em argumentos a favor. Se tiver oportunidade transcreverei um deles.

  2. Carlos, não sou catastrofista. Não estou preocupado comigo, contigo, ou com outros utilizadores da língua portuguesa – em Portugal, no Brasil, ou nos PALOP – que: temos um grau elevado de domínio da língua e o vício da leitura quase ininterrupta de autores de indiscutível qualidade de escrita; não confundimos com erros os desvios criativos da “ortodoxia” gramatical praticados por alguns desses autores – só possíveis pelo seu apuradíssimo domínio dessa mesma ortodoxia “circunstancial” e das múltiplas ortodoxias históricas; sabemos distinguir as diversas normas em uso no mundo da lusofonia (e até, em muitos casos, o momento histórico em que determinado texto foi produzido); não nos atrapalhamos a ler a nossa língua nas suas diversas normas – antes degustamos com prazer os seus variados sabores; lemos e/ou escrevemos em várias outras línguas, o que alarga a consciência que possuímos do que é a gramática, a ortografia, a semântica, a prosódia…; e, por esse conjunto de razões, vamos, naturalmente, continuar a usar o português como o usávamos, tal como afirmas… Mas acontece que este “grupo”, que integramos, é uma pequeníssima parte (ou tens dúvidas?) da população abrangida pela designação de “lusófona”, cuja maioria este AO simplesmente desprezou e lançou aos bichos: o episódio dos locutores da Antena 2 é paradigmático! A minha maior preocupação, que parte do que descrevi no artigo me parece fundamentar razoavelmente, é com esses párias da cultura, afastados do nosso “grupo” de elite cultural (sem falsas modéstias, que só contribuem para desfocar o cerne da questão), não por qualquer superioridade intelectual por eles inatingível e em nós inculcada por deuses acaso especificamente dedicados a tais milagres, mas pelas políticas educacionais, deliberadamente insuficientes e ineficazes, que a sociedade do “seu país” lhes proporciona, com objectivos bem determinados e desprezíveis. E é esta preocupação com o que acontece com os mais “desvalidos” que, como em tantas ocasiões, me impele a não desistir de uma causa, que não considero perdida, nem algo a que me deva acomodar, como cão manso ao canto da lareira.Até tenho uma perspectiva optimista que não me suscita dúvidas: em qualquer momento do “estado” de uma língua (nas suas diversas normas, de que nem só o português é exemplo), mesmo com disparates transformados em linguagem corrente e aceites como formulações correctas (como acontece com o já dicionarizado “chamar à atenção”, que só precisou, para se impor, do predomínio, nos “media”, de inúmeros profissionais que padecem de iliteracia aguda…), haverá sempre escritores capazes de transformar qualquer refugo – sobrevivente das mais selváticas agressões linguísticas – em literatura de grande qualidade, desse modo “fixando” as melhores formas de expressão da língua em que escrevem, no período histórico em que produzem a sua obra, isto é: uma nova norma. Como a História amplamente confirma.Quanto aos argumentos tontos de alguns opositores do “Aborto”, é como em tudo: em Democracia, a asneira também é livre! Se aceitássemos essas tolices como “descredibilizantes”, então não haveria causa que não fosse descredibilizada, pois nenhuma está defendida da irrupção de argumentos tolos… Mas não é isso que acontece com os documentos mais importantes (entre eles, duas – e só duas! – petições, que eu conheça e tenha subscrito) enviados à AR ou outros órgãos de soberania; nem com várias análises mais aprofundadas, algumas já editadas em livro.Abraço

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