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Diário de bordo de 27 de Dezembro de 2011

 

Já toda a gente ouviu falar na caixa ou jarra de Pandora. Recordamos o essencial desta história que a Ilíada nos conta – na casa de Zeus havia duas jarras, uma contendo todo o bem do mundo e a outra encerrando todo o mal. Pandora não resistiu à curiosidade e abriu a jarra que continha tudo o que era mau – gerou-se o caos, mas houve um mal que não foi libertado – aquele que matava a esperança. Da Grécia nos chegou a Democracia, da Grécia nos chegaram histórias como a Ilíada e a Eneida. E desde a Grécia até aos nossos dias a Democracia percorreu um longo caminho.

 

 

O que, parecendo ter começado na Grécia, está a acontecer na União Europeia, com grande incidência  em Portugal, configura um novo tipo de totalitarismo a que não será legítimo designar por fascismo, porque certas garantias e liberdades constitucionais que os cidadãos conservam, não autorizam a que se atribua esse rótulo à ditadura oligárquica e bipartidária que nos diirige dessa forma. Não há polícia política, não há censura, todas as pessoas podem exprimir livremente as suas ideias e podem filiar-se em partidos. Este jogo, o chamado «jogo democrático» funciona quando não há grandes tensões sociais – as pessoas em geral, não se interessam por política. É uma das regras do jogo – a política é para os políticos – os cidadãos limitam-se a escolher por quem querem ser «governados».

 

Foi esse desinteresse generalizado que manteve a ditadura por 48 anos – a resistència antifascista era produto do trabalho de grupos, de minorias esclarecidas – comunistas, anarquistas, socialistas, católicos progressistas… A defesa da situação era produto de um número ainda mais reduzido de militantes políticos – os fascistas convictos, eram raros. A grande maioria guiava-se pelo princípio «a minha política é o trabalho». Era uma maioria constituída por pessoas que interiormente se diziam democratas, mas sem coragem para pôr em perigo a sua liberdade. E quando alguém era preso, sussurravam – «ninguém o mandou meter-se na política…». A maioria queria a Liberdade (que não sabia bem o que era), mas nada fazia para a conquistar. Viu-se o que foi o 25 de Abril, a explosão de alegria que encheu praças e avenidas. Já em Maio de 1945, quando acabou a 2ª Guerra Mundial, pôde observar-se que, pelo menos nas duas maiores cidades do País, foi grande o júbilo pela derrota do Eixo nazi-fascista.

 

E muitas dessas pessoas que se diziam democratas, votavam na União Nacional, pois havia a ideia de que os votos eram controlados. Havia quem ouvisse a Rádio Moscovo, ou A Voz da Liberdade, com um copo de água sobre o receptor de rádio – era, diziam, a forma de não ser detectados por carros que andavam pelas ruas, com antenas especiais a captar essas emissões e a identificar quem as estava a escutar. Mitos que ajudavam a ditadura a manter-se.

 

Nada disso acontece agora. No entanto Salazar nunca se atreveria a fazer o que Passos Coelho está a levar a cabo. Mantinha-se um equilíbrio económico e social, baseado na penúria é verdade, mas que permitia que as pessoas não desesperassem. Passos Coelho, e o seu grupo de trabalho, está a brincar com o fogo. As pessoas não querem saber de política – tal como antes votavam na União Nacional, votam agora no PSD ou no PS que são os equivalentes democráticos ao partido único- para tudo o que interessa, comportam-se como tal – não é uma «união nacional», mas é um «bloco central».

 

Mentindo, dizendo hoje que nunca fará coisas que daqui por uma semana estará a anunciar, Passos Coelho está paulatinamente a desarticular à frágil estrutura social que mantinha as pessoas indiferentes à política. Agora, são novos cortes nas reformas acima dos 246 euros (como se fosse possível alguém sobreviver com isso!). O desemprego vai subir em flecha e, com ele, virá o aumento da criminalidade. Antes havia o medo da polícia política – hoje há o medo aos criminosos. O «jogo democrático» tal como Mário Soares o defendeu há 36 anos quando se estava numa encruzilhada histórica, está a chegar ao fim. E as pessoas que não querem verdadeiramente saber de política, que votam nestes dois partidos tomados de assalto por serventuários dos grupos económicos, vão mandar o jogo democrático às urtigas. Ao vergar-se servilmente perante as ordens de Merkel e de Sarkozy, indo cada vez mais longe na espoliação de trabalhadores e pensionistas, Passos Coelho está a abrir uma caixa de Pandora.

 

Oxalá a nossa esperança possa sobreviver ao que aí vem.

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