Nas fotografias – à esquerda a equipa do Barreirense. O guarda-redes, de verde, é o Bento. Em baixo, Eusébio no Mundial de 66.
Um pouco estranho escrever sobre futebol num blogue onde maioritariamente tem lugar a cultura mais pura e dura. Por aqui vou começar a passar, respondendo a um desafio do Carlos Loures, como contraponto ligeiro de uma linguagem mais erudita. Leitura mais ligeira mas não menos verdadeira. Ora aí vai a primeira experiência.
Quando era miúdo (apetecia-me dizer ” quando era puto”), vivia no Barreiro, vila dos gases das fábricas, dos comunistas, de gente livre. Ali, naquela altura, tanto podia gostar-se de futebol, do jornal “A Bola”, como do “Avante”. Podia ser-se do Barreirense ou do Luso, e estar-se perto do “Partido”. Com a CUF – o clube dos patrões – já era mais difícil haver simpatia e empatia. Aliás os jogos Barreirense/CUF, pareciam-se com os actuais Porto/Benfica, obviamente sem as claques que hoje semeiam um clima quase de guerra. Os nossos pais e avós tanto iam à bola como participavam em acções clandestinas ou semi-clandestinas. Um mundo à parte, de vidas extraordinárias de homens e mulheres lutadoras que contrastavam com a realidade cultural e política do nosso país de então, diga-se, muito pobrezinha e triste.
Miúdo, adorava o meu clube, o FC Barreirense, formado de raízes operárias, que jogava até com alguns trabalhadores na sua principal equipa. Dessa época, clara em cada posição, do sim ou do não, dos prós – poucos – e dos contras – a maioria – e ainda dos vermelhos contra os verdes, guardo recordações fantásticas. Nesse tempo, ainda o país futebolístico permitia que houvesse gente que não fosse dos “grandes”, e que os “pequenos” tivessem vida própria e importante, sem estarem sujeitos, como actualmente, ao domínio monopolizador dos três grandes clubes nacionais amparados por um mediatismo, quase diria eucaliptal, tal a forma como secam quase tudo à sua volta. O Barreirense, a CUF, o Vitória de Setúbal, até o Seixal, Montijo e outros, só para falar na margem sul, andaram pela I Divisão, e, sem grandes meios, só com o poder dos seus adeptos e do associativismo quase puro e lúdico, lutavam de igual para igual com os mais fortes. O mais forte, era sem dúvida, nos anos sessenta, o SL Benfica, onde pontificava, entre outros, um jovem barreirense de nome José Augusto, formado na terra e no clube, e que por esse motivo levava as gentes do Barreiro a aproximarem-se do clube lisboeta, excepto quando havia jogos entre os dois clubes onde a rivalidade chegava ao rubro.
No início desses anos sessenta, apareceu um jovem no clube da Luz que viria a entusiasmar as multidões de então. Chamava-se Eusébio e marcava a diferença para todos os outros, assim a exemplo de um Messi ou de um Ronaldo, dos tempos modernos. Falar de Eusébio, é quase como falar de uma lenda, já que nem a televisão nem outros meios que hoje existem tinham qualquer destaque e poder. Esses eram os tempos da rádio, e com a rádio, imaginava-se e sonhava-se, não se via. O pouco que existe de imagens mostram um atleta veloz, forte, com um remate potente como jamais se vira, e que marcava golos fantásticos e inesquecíveis.
E foi ali, no velhinho D.Manuel de Mello, os nomes dos patrões em tudo…, que penso ter visto pela primeira vez o jovem Eusébio correr que nem uma gazela atrás da bola e disparar aqueles tremendos remates que pareciam sair de uma espingarda tal a velocidade que levavam! Aliás, sempre que o Benfica jogava no Barreiro, a zona atrás das balizas ficava para quem chegava atrasado, dado que se sabia que nem todos os remates do moçambicano entravam e assim havia de se estar bem longe daqueles autênticos petardos…!
Se fosse hoje, Eusébio seria provavelmente o melhor do mundo, dado que possuía muitos dos dotes que têm o argentino do Barcelona e o português do Real Madrid e tinha algo mais do muito que qualquer deles possui, o instinto e a sagacidade africana. Infelizmente para ele, porventura felizmente para nós, nasceu fruto da cultura colonial portuguesa, sofrendo naturalmente com uma barreira intransponível, as fronteiras do salazarismo, tendo-lhe sido cerceadas por esse motivo as possibilidades de sair do país e de jogar noutro local onde o poder da comunicação social o levasse ao lugar que mereceria. O Portugal desse tempo, início das guerras coloniais, estava praticamente isolado do mundo e só a tremenda qualidade desse jogador e dos seus colegas, quer nas competições europeias, quer no mundial de 1966, levavam a que em todo o mundo se falasse do nosso país com admiração. Era pouco, mas era o que havia.
Quis a vida que o viesse a conhecer quase trinta anos depois e que viéssemos a privar em tantos jogos e competições internacionais e que dele inúmeras histórias tenha ouvido de alguns dos seus colegas de então, de Simões a Toni, de Artur Jorge a Humberto Coelho, de José Augusto a Coluna. O Benfica cresceu com Eusébio e com ele, internacionalmente, sempre se confundiu, tendo crescido muito por força do prestígio alcançado por esse jovem nascido na então Lourenço Marques, hoje partilhando as suas origens com Lisboa que o considera seu filho adoptivo.
Pode ainda dizer-se abertamente, que o clube tirou bastante partido da dimensão, prestígio e até do seu sacrifício físico assumido, já que em algumas ocasiões jogou inferiorizado só para que os altos contratos se mantivessem. Os contratos cairiam radicalmente se ele não jogasse…e por isso jogava nem que fosse a coxear. Se as suas pernas falassem, muitas histórias se contariam de como foi possível arrasar aqueles joelhos que hoje lhe retiram muita, qualidade de vida, umas vezes por culpa de adversários intratáveis, noutras, por nesse tempo haver um corpo médico sem os desenvolvimentos actuais da ciência. Mas é assim a vida do futebol, apesar de tudo hoje mais humanizado e organizado e que permite uma maior e melhor defesa dos jogadores que felizmente também estão melhor preparados e acompanhados, sobretudo do ponto de vista médico.
Tinha tantas histórias para contar acerca de Eusébio, de momentos que assisti ao vivo, e do enorme prestígio que esse homem tinha e ainda tem, de Riga a Dublin, de Sheffield a Londres, de Bucareste a Barcelona, de Cape Town a Colónia, de Bratislava a Belfast, de Amesterdão a Bruxelas, e em tantos outros locais, num interminável conjunto de situações reais que quase dariam para um livro. Hoje, nestes dias, em que a sua vida teve um pequeno transtorno, ficam aqui estas breves palavras de admiração por um homem simples que foi um rei na sua profissão. Aliás é assim que o tratamos na Selecção Nacional, na intimidade dos espaços de lazer e trabalho, ele, Eusébio, é o “King”.

