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DIÁRIO DE BORDO, 5 de Janeiro de 2012

 

 

 

 

A Comissão Europeia publicou um estudo analisando o impacto das medidas de austeridade entre 2009 e Junho de 2011, nos seis países mais afectados pela crise, a saber, a Estónia, Reino Unido, Irlanda, Grécia, Espanha e Portugal. Chegou à conclusão de que o nosso país é o único em que o impacto teve uma incidência regressiva na escala social, penalizando sobretudo os mais pobres do que os mais ricos. E os autores não terão conseguido incluir nos seus cálculos a parte do impacto resultante dos cortes nos serviços públicos. Não custa a crer que esses cortes também tiveram efeitos regressivos, como é evidente no caso dos serviços ligados à saúde.

 

Este estudo não levou em conta os resultados da entrada da troika em Portugal, nem da governação Passos Coelho. É perfeitamente legítimo supor que a situação dos efeitos regressivos da austeridade se agravou ainda mais. Por outro trata-se de um estudo elaborado pela Comissão Europeia, o organismo não eleito a que preside Durão Barroso, totalmente insuspeito de permeabilidade a ideias de esquerda. De onde se pode vislumbrar a gravidade da situação em que os portugueses se encontram, sobretudo os das classes médias e baixas.

 

Portugal encontra-se assim numa situação mais complicada que os outros países da UE, mesmo os do grupo em pior situação. Não é a primeira vez que se faz essa constatação. Mas não se faz uma reflexão aprofundada sobre o assunto. Não se faz a discussão sobre assuntos fulcrais, como por exemplo o excesso de concentração de riqueza, a tendência da sociedade actual a funcionar como uma oligarquia, o peso da Igreja na vida nacional e outros tabus.

 

Quando chegam as crises fala-se então na unidade nacional e na partilha de responsabilidades, que se invoca serem de todos. E que há que repartir os sacrifícios. Claro que a repartição vai carregar nos mais fracos, que se defendem pior. E a governação é feita à vista, para tapar os buracos que se vão abrindo. É o caso dos cortes orçamentais feitos de qualquer maneira, cortando na carne, em vez de cortar na gordura (para usar a imagem do Dr. Catroga). Como há que fazer dinheiro rapidamente, para melhorar o saldo do fim do ano, fecha-se onde se pode obter um saldo depressa. É o caso do encerramento da maternidade de Elvas. Agora aparece uma conta para pagar a Espanha, ao Hospital de Badajoz, que será de 2,3 milhões de euros, pois nasceram lá 1300 bebés portugueses. Como fica a imagem nacional, após uma cena destas? E se calhar ter mantido a maternidade aberta não teria custado mais caro. Não é nacionalismo excessivo, com certeza, dizer que o dinheiro sempre tinha ficado cá. Nem socialismo desbragado dizer que os mais prejudicados foram as pessoas da zona de Elvas com menos posses, que tiveram de se deslocar a Espanha, com as despesas e fadigas inerentes. Mesmo que custasse mais manter a maternidade de Elvas, tinha valido a pena com certeza.

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