1. O ZINGARELHO JAPONÊS
Sempre gostei daquela frase da Pasionaria: “antes morir de pie que vivir de rodillas”. Dolores é como se chama a minha filha, aliás a única. O nome pegou de raiz, a rapariga fez-se rebiteza, como a outra, a espanhola. Fez o Liceu, depois o Instituto Superior Técnico, a Informática, as Electrónicas. Atrás dela andava sempre uma alcateia de rapazes. Se ela tropeçou em algum, eu cá não sei, nem quero saber, isso é lá com ela. Mariana, a minha mulher, é que não me perdoa esta minha indiferença. Está sempre disposta a resolver tudo à peixeirada. Ou não tivesse ela sido varina, nos bons tempos. Porém agora é uma senhora, até já tem um lugar de peixe. O que não a livra de andar eternamente desconfiada; não, não e não, já lhe disse que não é indiferença, é só respeitinho pelas fronteiras de cada qual.
Com 23 anos a Dolores acabou o curso e foi logo convidada para uma pós-graduação nos Estados Unidos. A Mariana chorou muito. Aos 26 anos a Dolores aceitou um emprego em Tokyo. A Mãe arrepelou os cabelos, coitadinha da rapariga, agora até já está no outro lado do mundo. Raras foram as cartas que a Dolores nos escreveu. Mas ontem, ao fazer 30 anos, mandou-nos um telegrama a avisar que chegará amanhã ao aeroporto da Portela.
Desce do avião e a Mariana não se aguenta, beijinhos e abraços, ai minha rica filha, estás tão magrinha, come esta maçã, come! A Dolores trás um japonês a tiracolo, rapaz novo. Apresenta-mo. É nome arrevesado. Saio pela tangente:
– Seja benvindo, sr. Takôku Nakara.
A Dolores torce o nariz. Não tarda muito começa a guinchar e a bater os pés, como fazia dantes. Corto a direito:
– Minha filha, não te amofines, esse gajo aí, para mim é o Samurai, e não se fala mais nisso.
A Dolores enrola a língua num patuá cheio de soluços e o japonês sorri, faz uma vénia, quase bate com a testa no chão. Gostou da alcunha. Ainda bem.
A Mariana ficará muito inquieta. Pergunta-me se o Samurai será noivo ou namorado da nossa filha. Começa a antipatizar com ele, pois o japa só gosta de comer peixe cru.
– Não te preocupes, é apenas um boy friend.
– Mas o que é isso, ó Fernando?
– Ora, é um desentupidor dos circuitos da placa lógica, coisas da electrónica..
A Mariana fica mais sossegada e a minha filha pergunta-me se pode ocupar os barracões que ficam nos fundos do meu quintal. Tenho uma casa com vista para o Tejo, herdei-a do meu avô. E no quintal tenho até duas palmeiras. Alfama, pois claro. Num socalco entre o Largo da Marinha e a rua das Escolas Gerais. Claro que pode ocupar os barracões. No dia seguinte começam a chegar caixas, caixinhas e caixotes. A Dolores conta-me que ela e o Samurai estão a trabalhar para uma multinacional japonesa. Devem montar aqui o protótipo de um robot doméstico que vai ser colocado em todos os lares europeus. Não me aguento:
– Agora a menina diverte-se a brincar com brinquedos japoneses?
Vai aos arames mas explica-me a jogada dos amarelos: os portugueses são uma espécie de pretos mansos da Europa. Mesdames, Ladies e Frauen ficarão mais descansadas quando o mordomo electrónico começar a falar com sotaque português.
– O quê? Falar? O zingarelho vai falar?
– Tal e qual um homem, Pai. Tu vais ver.
Três meses depois, vou eu a atravessar o quintal e, de repente, salta-me ao caminho uma espécie de gatão, todo em alumínio e fibra de vidro. As patas da frente levantadas, o traseiro são duas rodas motrizes, uma terceira a timonar. Antenas em vez de orelhas. Lentes em auto foco em vez de olhos. Cabo metálico, flexível, em vez de cauda, e era a tomada de energia. De rabo alçado aí vem o danado. Levanta o pescoço, mecanismo de periscópio. A cabeça é uma abóbora de vidro, transparência, luzinhas a acender e a apagar. Gira a cabeça de um lado para o outro, 360 graus, até fico tonto. Avança agora sobre mim. Precavido, levanto o pezinho. Um coice bem arreado resolve muita situação…
Nisto, a Dolores sai do barracão, dá um grito e a avantesma pára. A minha filha diz que vai contratar-me como professor de português do zingarelho.
– Mas, Dolores, eu nem tenho o 7º ano, eu posso lá ser professor…
– Não faz mal, Pai, do que nós precisamos é de um especialista em coloquialismo. E nisso tu és bom. Topas?
– E carcanhóis, ó menina? É trabalho só para aquecer?
– Para começar, 2500 dollars por mês. Topas?
– Topo! Toca aqui.
Não tocou. Abraçou-me e beijou-me. O Samurai é que veio, cheio de mesuras, a apertar-me a mão. Nas vésperas da minha reforma de tipógrafo, juntamente com os lucros do lugar da Mariana, aquele dinheirinho extra vinha aquecer o meu orçamento.
Mas não acredito que o zingarelho venha a falar. A Mariana e o Samurai julgam que falar é só armar aos sons. Não sabem das contravoltas misteriosas que há no verbo. Fico horas e horas defronte de um gravador cheio de botões, painéis e curvas luminosas. A Dolores manda e eu falo o que me dá mona. Dias depois o Tareco já está a falar com a minha voz. Porém, mais parece um inglês, treinador de futebol, a falar português. Até que um dia, lá no quintal, o zingarelho pára diante de mim, saúda e eu espantado:
– Bô diá, sinô Fenandô!
Dou um salto atrás, faço figas.
– Vade retro Satanás, cruzes Canhoto, t’arrenego Tareco!
Lá vem a Dolores a correr, a rir e a bater palmas:
– Tareco é um grande nome! Ó paizinho, tiveste um grande desarrincanço.
E Tareco fica sendo aquele feloso. Pô-lo a falar língua de gente é que vai ser o diabo. Estou para ver…
(Continua)
