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LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA – 13 – por Raúl Iturra

 

(Continuação)

 

É assim que entramos pelas problemáticas das crianças. Os Códigos são espartanos na sua definição. A pessoa que falava no Seminário parece ter razão: a criança é um subentendido. A frase é minha e com amabilidade foi usada, devidamente citada, na exposição referida. Não consigo não repetir: a criança é um subentendido, um subordinado como denominei nas Actas do II Colóquio sobre a Investigação e Ensino da Antropologia em Portugal[1].

 

A minha teima tem sido sempre a ignorância que o adulto atribui à criança, mas, ao mesmo tempo, como esta criança sabe defenderse da ignorância que o adulto lhe oferece. Ignorância que não é apenas o facto de ser uma entidade despercebida, o que vive dentro de regras e horários que afastam as duas gerações. Se retorno à minha comprida citação, posso apreciar que a cultura do saber universal entrega aos mais novos um papel sem representação dentro do grupo: eis porque os autores citados dizem que se deve “talhar”, “construir”, um lugar dentro da sua cultura, porque um dia a cultura lhe dará o seu lugar social conforme a aprendizagem que tenha feito do saber, ou, como diz o começo do parágrafo 2, o indivíduo elabora a sua experiência de entre os materiais fornecidos pela cultura. É o caso que tenho observado entre as crianças Picunche da Villa de Pencahue, Província de Tralca, Chile e analisado em 1998 e 2000[2].

 

Toda criança tem como obrigação trabalhar a terra, tomar conta dos animais, ensinar aos mais novos a usar a tecnologia para não se ferirem, satisfazer a libido dos adultos da casa ou visitantes sem se queixar – política que faz parte do comportamento ritual de crescimento dos pequenos e das pequenas. Normalmente, pequenas reservadas para o pai, enquanto os “niños”, para os irmãos mais velhos, os irmãos dos pais, etc. Comportamento a ser reproduzido, como fui capaz de observar ao longo de mais de 40 anos, entre grupos diferentes de Picunche de sítios geográficos distantes do Chile. Criança que não tem adulto, é criança mal criada, uma vergonha social, desprezada, não querida, que acaba por procurar um homem na casa dos Homens que para este propósito, existem. Ou, durante certos anos da minha pesquisa, na Casa da Igreja Romana, com o Padre que acabou por fugir com um deles. Como relata Maurice Godelier no seu texto sobre La Production des Grands Hommes na Melanésia, em 1981[3].

 

Formas rituais de unir em relações reprodutivas os seres humanos no futuro, na idade madura. Esta forma de relação cria uma associação entre quem bebe esperma do outro ou recebe esperma por fellatio e as relações reprodutivas com a mulher mais próxima de quem dá e virá a ser a mãe dos seus filhos – irmã, filha de irmão, parente dentro do grupo clãnico no caso dos Baruya da Nova Guiné ou parente não consanguíneo directo em relação de ascendência – descendência, como entre os Picunche, Huilliche, Aimara, outros.

 

 

No entanto, esta forma de entender as relações deve passar antes pelas definições de idade e os conceitos que as pessoas têm ou lhe são atribuídas pelo seu grupo. Se uma introdução à análise das formas culturais de organizar as emoções já significa uma classificação, é preciso entender a classificação dos adultos perante as crianças, ou das crianças. Pensa-se que os mais novos não entendem, pode dizer-se tudo o que se quiser em frente deles por, ou já saberem tudo, ou ficarem com o seu “saber proscrito”, como diz Alice Miller[4].

 

(Continua)

 

 

 

[1] Iturra, Raúl, 1989: “Pensamento dogmático, Pensamento positivista. O Governo Letrado das Relações Sociais” in Antropologia Portuguesa, Vol. 7, Museu e Laboratório de Antropologia, Universidade de Coimbra. Este texto foi a base do meu livro de 1990 a) Memória e Aprendizagem. A construcção social do saber em Vila Ruiva, Escher, Lisboa, base do conceito debatido por mim da subordinação da criança ao adulto. Website para debate http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Raul+Iturra+Mem%C3%B3ria+e+aprendizagem.+A+constru%C3%A7%C3%A3o+social+&spell=1

 

[2] Iturra, Raúl, 1998: Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedições, Porto; e 2000: O saber sexual das crianças. Desejo-te porque te amo, Afrontamento, Porto. Website nota anterior.

 

[3] Godelier, Maurice, 1981, La Production des Grands Hommes, Fayard, Paris. Website http://www.arte-tv.com/…/Le_20Monde_20des_20Papous/ Rites_20-_20Initiations/220072,CmC=401656.html

 

[4] Alice Miller, 1988 : Das verbannte Wisen, Surkham Verlag, Frankfurt am Main- Versão Castellana: 1990 e 1998: El saber proscrito, Tusquets Editores, Barcelona. Website para ampla informação e sínteses de obras e artigos : http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Alice+Miller+El+saber+proscrito&btnG=Pesquisar&meta=lr%3Dlang_pt Há versão inglesa de Virago Presss, 1988

 

 

 

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