De olhinhos bem abertos, com o corpo a escorregar pela cadeira e pernas bem esticadas… falam baixinho e acotovelam o colega do lado indicando com um levantar de cabeça que a colega não parava de mexer no cabelo…
É um cabelo bonito, preto, todo encarapinhado e redondo, à volta da cara que parecia estar cheia de aborrecimento porque, mais uma vez ,iam ouvir conselhos sobre as crianças para que sejam meninos e meninas bem comportados… o que é ser bem comportado? É fazer o que diz o professor. E o que dizem os professores? Dizem para nos portarmos bem, que é uma vergonha portarem-se mal à frente de uma pessoa que não conhecem.
Eu já não sou rapaz nem miúdo, sou um homem.
Esta frase dita para todos, e para ninguém, encheu o ar da sala onde se ia falar sobre a Convenção dos Direitos da Criança.
O rapaz, feito homem, achava que já não tinha nada a ver com esta problemática…eles são uns putos, eles é que devem conhecer.
Muitas mais situações peculiares podiam aqui ser referidas….
Analisando esta pequena, mas muito importante, situação havida numa sala, supostamente, organizada para debater os Direitos e os Deveres da Criança, sente-se um afastamento – tábem eu sento-me direito — que incomoda, parece que tudo está mal, que tudo os aborrece, parece ao professor que está perante uma situação muito difícil, porque não há tempo, não há espaço nem recursos humanos para acompanhar os casos de desadaptação e de sentimento de exclusão. Os pretos também são racista!
Eram 35 crianças/jovens que ao principio mostravam evidentes indícios de desinteresse. Sim, estamos aqui porque a setoura disse que íamos aprender a conviver.
Nos primeiros minutos estes alunos mediram a distância entre os diversos protagonistas e mostraram, que a teoria de recursos, de troca e de controlo social está subjacente
Nesta agradável sala, estavam jovens e adultos: uns queriam transmitir que não precisavam de aprender “isso das crianças”, e os outros para lhes mostrar que está nas nossas mãos o querermos evitar as situações de violência.
Estes alunos são uma amostra do que se passa em muitas escolas. Os alunos têm muita informação, mas não conseguem a transformação de atitudes, de comportamentos.
Eles sabem que não há controlo social que evite dar pancada nos colegas.
Eles sabem que, nesta troca de conhecimentos e de vivências, têm mais a ganhar do que a perder…
E porquê?
Muitas vezes as regras e os valores do “seu grupo” sobrepõem-se às regras e aos valores dominantes. A sanção, no seu endogrupo, é importante porque são a sua família, é perante ela que respondem.
Na escola são reconhecidos, negativamente, pelos valores, pelas regras normativas, que raramente cumprem,
No seu grupo de pertença, o reconhecimento da sua identidade pela positiva está associado à capacidade de criar ruptura com as normas sociais.
Não têm medo de nada, estes homens incompreendidos… a violência vivida em casa pega-se-lhes à pele e, assim, reproduzem-na sentados numa qualquer cadeira da sala.
Enfiam a cabeça no capuz do blusão, são só vistos e reconhecidos quando querem.
O que para o professor é uma regra social-tirar a cabeça de dentro do capuz – para eles é uma provocação- chêe que mal tem? É só porque é setor e tem a mania que manda.
Ter a mania que manda, assusta-me porque se subentende que estamos perante um campo de batalha. Estes alunos demonstram bem que algo vai mal. Os professores não têm tempo para humanizar a sua relação com os alunos, não têm tempo porque o Ministério enche as salas de alunos e não de pessoas, recusa-se a perceber que ninguém ensina nem aprende quando o clima escolar é de exclusão, quando os intervalos, entre as diferentes disciplinas, não contribuem para gerar momentos de bem estar…
Na escola ensina-se, aprende-se, trocam-se conhecimentos…mas com esta distribuição de alunos não se consegue mudar de atitudes, de normas sociais…
Cada sala de aula é um mundo a descobrir sem receios e sem preconceitos…mas com pessoas com diferentes sensibilidades.