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Júlio Marques Mota* comenta o depoimento de Carlos de Matos Gomes

*Professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

 

Caro Carlos de Matos Gomes, Caros Argonautas, Caros Companheiros por estas águas a marear:

 

Li este muito bom texto e o reli. Li e bem o compreendi. Li e bem o senti. Podíamos ficar por aqui, mas seria apenas ter colocado palavras terminadas em i à procura de uma rima e não das ideias em que aquelas  palavras inscrevi.

 

Deste riquíssimo texto selecciono uma questão preliminar, o títulos e dois  pontos, dois excertos. Educação e Rumo Para Portugal

 

Como título temos : Que Rumo para a Democracia em Portugal

 

Ora para mim, estamos a sair de uma democracia puramente formal, porque de Democracia creio que pouco mais nos resta que o direito de voto seguindo uma rota fascizante  e a implantar o que hoje  podemos chamar já de fascismo moderno. Mas mesmo o voto, temos o direito de escolher entre A e a imagem mais ou menos deformada de A, o direito de votar em B. Dão-nos o direito de votar no mal e no pior gritaram os Occupy, isto é não nos dão o direito de escolher. Vivemos numaencruzilhada  e sob três grandes barreiras de fogo, as políticas de austeridade impostas pela União Europeia, as políticas de austeridade exigidas pelos mercados globais, financeiros ou não,  que temos de acalmar, e depois , sofremos ainda dos tiros contínuos de um conjunto de verdadeiros ladrões do futuro de um povo que dão por nome de Executivo de Passos Coelho. Como sair disto e abrir caminho para a Democracia? E abrir caminho poderia ser  este o  título do texto.

 

 Diz-nos Carlos de Matos Gomes:

 

“Aprofundamos a democracia melhorando a participação dos cidadãos – uma questão que tem tanto de técnica (sistemas de intervenção e representação) como de responsabilidade cidadã. A mais difícil de conseguir é a segunda, porque é cultural. Melhoramos a cultura de participação na democracia, melhorando a formação dos cidadãos e a sua informação”.

 

Sou professor, minto, fui professor e esta profissão larguei quando me confrontei com as ruinas de uma Universidade que bem ou mal a criar muito ajudei. Repare-se, não me doutorei,  e portanto, na base das leis de Mariano Gago e José Sócrates sempre em vigor nem na Universidade teria eu hoje lugar. Daí a um passo de se poder por eles dizer: nada que digamerece crédito, segundo os nossos padrões. Garanto, de nada disso me lamento. Mas rua deveria estar, seria esseomeu caminho e é esse caminho que por lei está já a ser garantido para os não doutorados. Mas vem isto a propósito de quê? Do excerto em questão acima reproduzido. O ensino secundário foi posto numa manta de retalhos, os professores mais do que ensinar têm que modelar a sua carreira e as suas horas de trabalho  para os ratings, os equivalentes da Standard andPoors e outros,  Milhares de   professores saíram,  a maioria dos mais velhos, a maioria no topo da carreira, muitos deles porque se recusavam a ser aquilo que para o que nunca se prepararam: avaliadores. Um defensor de Sócrates e Mariano Gago dirá: mentira.  Demos-lhes cursos de formação para avaliadores! A estudarem decretos em final de Julho e Agosto, coercivamente, muitos deles já em férias e numa semana! Para rir, este tipo de argumentação. E a Universidade? Temo pelo futuro deste país, temo pelo futuro da minha filha, temo pelo destino da minha neta quando o amanhã deste país estiver na mão dos ignorantes nas Universidades hoje produzidos.  Ou será por acaso que Passos Coelho é um licenciado de tempos livres ou Sócrates licenciado por fax ou email num qualquer fim-de-semana? 

 

Face à banalização e ultra-simplificação do ensinosuperior  que foi verdadeiramente  imposta por Bruxelas com a reforma de Bolonha, mesmo  que esta  não seja aí que foi concebida,  que fazem as Universidades agora? Defendem-se, mas mal. Um exemplo: os Estudantes não sabem matemática. Em muitos cursos deveria ser uma restrição á entrada e com um limite mínimo bem acima dos10 valores. Solução: elimina-se a matemática como restrição ou dá-se-lhe alternativa!Outro exemplo para  acabar: baixaram os anos de licenciatura e para alunos que vêm mal preparados. Quando muitos delas já nem operações tão simples como somar ou dividir, sabem! Lembram-se da reportagem do Público sobre o assunto. Os cursos reduzem-se e as Universidades concorrem a captar alunos, mas onde? No estrangeiro e para isso cursos em inglês se devem oferecer, como faz a muito indistinta Universidade Nova.Num país onde a maioria dos professores não sabe falar correctamente inglês e onde a maioria dos alunos não sabe sequer português. Diabólico, este plano inclinado, o oposto ao do texto, o oposto ao proposto por Carlos de Matos Gomes-

 

O rumo para Portugal é uma resultante de dois vectores: um, determinado pelo espaço político e económico em que nos integramos, a Europa (quando falo de Europa, falo de União Europeia); o outro,é determinado pelo que Portugal consiga realizar, mas para isso um primeiro passo é importante: consciencializar a população portuguesa que não há que escolher entre o mal e o pior, não, não nos deixemos exterminar.

 

Exterminemos nós este conjunto de políticos, os do mal e os do pior, exterminemo-los nas urnas. E nestas urnas estão também as eleições europeias em que temos de votar  em todos os que se opõem a esta Comissão  e a este quadro institucional. Mas não só em Portugal, o grito de raiva, de consciência e de revolta  tem de ser:  Europeus, uni-vos! Sem esse trajecto, sem este caminho comum, não há caminho para a Democracia em Portugal, disso tenho a certeza.

 

Deixem-me colocar aqui um excerto de um texto espantoso escrito pelo homem quem construiu a Intel, Andy Grove, que iremos proximamente publicar aqui neste blog, a propósito das políticas que estão a ser defendidas, que estão a ser seguidas, as do mais curto termismo possível:

 

 “. Veio-me à cabeça a história de um engenheiro mecânico que estava para ser executado na guilhotina. Mas esta estava «presa» e, segundo a tradição, se a lâmina não caísse, o condenado seria libertado. Antes que isto pudesse acontecer, o mecânico, em excitação, apontou  para uma roldana enferrujada e disse ao carrasco para lhe aplicar um pouco de óleo. Então a lâmina caiu e lá se foi a cabeça do engenheiro mecânico.”

 

Não sejamos pois engenheiros mecânicos, afastemos para bem longe os latas de sprays com óleo que a guilhotina podem lubrificar, queiramos ter a certeza de um futuro por nós livremente a realizar.. Deve ser este o nosso primeiro trabalho político, rumo à Democracia.  E obrigado, Carlos de Matos Gomes por este seu belo texto.

 

 

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