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Desindustrialização, Globalização, 3ª Série, 4ª Parte- Crescimento e produtividade

Um texto para Álvaro Santos Pereira ler a Passos Coelho – um relatório da McKinsey – IV. Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

(continuação)

 

 

A nossa análise em profundidade por sectores demonstra que não há uma explicação única que sirva para explicar o crescimento diferente de sector a sector e que as principais causas responsáveis ​​por diferentes graus de desempenho variam por cada tipo de sector. Para simplificar a nossa análise sobre um quadro complexo, nós definimos um novo quadro para a análise da evolução da competitividade dos diferentes sectores em que se divide a gama de sectores em seis grupos que partilham certas características e respondem às diferentes abordagens de políticas específicas.

NOVO QUADRO de Mckinsey é baseado em seis grupos de sectores

Para chegar ao nosso grupo de seis grupos de classificações, utilizámos dois factores como principais (Esquema 1):


1. Qual é o grau de comercialização internacional de um sector e, portanto, qual é o grau a que está sujeito à concorrência internacional ? Os sectores com significativas importações e exportações são concorrentes com fornecedores internacionais, e o seu desempenho em relação às suas contrapartes de outras regiões é importante para o crescimento e para a sua capacidade de gerar emprego. Em contraste, os sectores que em grande parte se concentram nos mercados internos – os serviços locais como a venda a retalho, por exemplo, tendem a reflectir directamente quer a procura local quer o ambiente de regulação a nivel nacional existente.


2. Qual o grau de diferenciação ou de estandardização que um sector deve apresentar?

Para produtos como as matérias-primas, as chamadas commodities, então o custo é o elemento chave na determinação da evolução da competitividade. Em sectores com maior variância na qualidade e no design, e assim sucessivamente, são os factores de não custo como a inovação e ou o prestígio de marca que são os factores-chave. A política a seguir nestes casos deve ter bem em conta este tipo de diferenças. Por exemplo, as políticas que ajudam a criar rendimentos de escala ou então a reduzir os custos de transporte podem ser fundamentais para os sectores de produtos básicos, enquanto as políticas de educação e de I&D podem ser mais importantes em sectores onde a diferenciação é uma característica importante.

Esquema 1.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


  1. Infra-estruturas de serviços

Cada um dos seis grupos é composto por sectores com semelhantes bases económicas e com semelhanças nas dinâmicas industriais. Depende do nível de desenvolvimento ou nível de rendimento, a importância que cada um estes grupos de sectores têm para a economia como um todo (Esquema 2).

1. serviços de infra-estrutura

Os serviços de infra-estruturas compreendem sectores tais como os serviços públicos, as telecomunicações e os caminhos-de-ferro, indústrias com grandes custos fixos para a construção de infra-estruturas em rede.


Devido a grandes economias de escala nestes sectores, a não regulação destes mercados não leva a uma dinâmica concorrencial entre as empresas do sector privado. Em vez disso, a regulação da indústria tem de definir as regras da concorrência e quais os incentivos para as operações das empresas serem eficientes. A regulação não pode mudar o comportamento, sendo um exemplo clássico da regulação a concessão da exploração da energia eléctrica que podem pagar as empresas de modo a aumentar o volume de entrega ou, alternativamente, para recompensar as empresas que promovem uma maior eficiência na utilização da energia entre os seus clientes. Ou tomemos ainda as telecomunicações móveis. O quadro de regulação neste sector precisa de encontrar o equilíbrio certo entre a economia possível nos custos a partir de criação de rendimentos de escala a partir de um único grande operador (que pode amortizar os custos da construção da rede a um menor custo por cliente e economizar noutros custos operacionais fixos), com os incentivos criados pela concorrência para oferecer novos pacotes de serviços atraentes e acessíveis para os consumidores.

 

 

2. Serviços locais


Este grupo fornece serviços às famílias e às empresas locais, incluindo a venda por grosso e a retalho ; hotéis e restaurantes, empresas financeiras e seguros. Este grupo representa o mais alto volume de emprego nos países de mais altos rendimentos assim como nos países de rendimentos intermédios.[1] O volume de negócios tende a ser elevado e o crescimento resulta sobretudo das empresas mais competitivas ganharem quotas de mercados ou a substituirem as empresas menos produtivas. A intensidade na concorrência é um motor importante do crescimento nesse grupo de sectores, fornecendo um incentivo para a inovação contínua e para a adopção de melhores práticas. Além disso, a pressão concorrencial garante que as empresas transferem parte dos ganhos de produtividade para os consumidores seja através da venda de produtos mais atraentes ou através da venda a inferiores preços. A oferta mais atraente faz, por seu lado, aumentar a procura, criando um ciclo virtuoso de expansão da procura interna e do crescimento do próprio sector. O papel fundamental do governo é o de criar o ambiente económico e de regulação capaz de incentivar a concorrência entre as empresas privadas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3. Os serviços prestados às empresas

 


Os serviços prestados às empresas incluindo actividades de computadores e de actividades relacionadas, I&D, e os serviços profissionais podem ser ou de fornecimento puramente interno ou ser produto negociado internacionalmente e estas actividades são no sector as que têm mais rápido crescimento. Os serviços competitivos prestados às empresas necessitam de um ambiente regulamentar que permita uma efectiva concorrência entre empresas privadas, incluindo os direitos de propriedade intelectual (IP) que são muito importantes na produção e fornecimento de software, nos media digitais, e nos sectores similares. Porque os serviços de negócios geralmente requerem uma força de trabalho qualificada, a qualidade do sistema de educação e do financiamento de pesquisa são também muito importantes para a evolução da competitividade. A capacidade dos governos em influenciar a competitividade do sector inclui, portanto, não apenas a criação do enquadramento regulamentar adequado (como nos serviços locais), mas também a criação de um pool de inteligência através da educação de base e da formação universitária. O Governo pode ajudar a garantir a formação profissional suficiente através do apoio à capacidade de inestigação local por via de contratos com o governo (por exemplo, empreitadas para a Defesa nacional ou consultores técnicos) ou ainda através de subsídios em I& D ao sector privado (por exemplo, os fundos de inovação públicos ou bolsas de investigação).

4. A intensificação em I&D na indústria transformadora


Nestes movimento rápido, os sectores situados ao nível global de bens e serviços negociados internacionalmente tais como os da indústria farmacêutica, da rádio e televisão e de equipamentos de comunicação, a capacidade de oferecer rapidamente produtos diferenciados ao mercado é fundamental. A dinâmica da indústria global e a concorrência entre as empresas determinam o crescimento das indústrias locais. O sucesso exige uma força de trabalho qualificada que pode continuamente oferecer produtos competitivos através das novas gerações de tecnologias, mantendo a sua posição e o seu ritmo num mercado em mudança. O baixo custo da capacidade de produção é também importante se as empresas têm que competir via preço, como é o caso com muitos dos produtos actualmente existentes.[2] A intensa competição global explica o rápido crescimento da produtividade nestes sectores e garante que os benefícios da inovação se irão transmitir aos consumidores na forma de menores preços[3].


A rápida evolução das indústrias neste grupo tornou difícil para os governos influenciar o aumento de competitividade e a melhoria de resultado directamente. Os esforços do Governo para definir e influenciar a direcção do desenvolvimento tecnológico, por exemplo, têm grande parte falhado[4].


É verdade que os decisores das políticas públicas podem aumentar a atractividade de sua localização, agindo como um dinamizador, por exemplo, através da formação de pessoal qualificado, uma condição necessária para qualquer actividade utilizadora intensiva de I&D; apoio à I&D através de universidades ou de fundos de investigação; e criação da procura interna por novas soluções emergentes (por exemplo, a energia solar). Alguns governos têm desempenhado um papel muito útil nessa dinamização mas, em geral, as probabilidades de sucesso das intervenções do Estado nestes sectores são baixos e são então caras. Na verdade, o apoio do governo através das diferentes países pode levar a excessos de capacidade global e a baixos retornos para os investidores, como temos observado na indústria de condutores.

 

(Continua)

[1] O Banco Mundial define países de rendimento médio como sendo os países que dispõem de rendimento per capita em 2003 entre 766 e 9.385 dólares, medido com a utilização da taxa de câmbio média dos dois últimos anos .

[2] Em muitos segmentos, os produtos relacionados com os serviços podem ser uma parte muito importante de uma oferta diferenciada. Os serviços representam mais de 50 por cento das receitas para as empresas de computadores IBM e HP, assim para a empresa OTIS fornecedora de elevadores Otis ou para a divisão motores da Rolls-Royce . Estes sectores de serviços variam desde a prestação serviços de software personalizado à manutenção de elevadores e de contratos de manutenção de motores de avião.

 

[3] O exemplo de produtos como os semicondutores e os computadores ilustra como os preços mais baixos para produtos de melhor qualidade tem ajudado a ampliar o mercado através da expansão da base de utilizadores. No entanto, esses preços mais baixos também significam que o investimento em melhorias de produtividade nestes sectores não pode ser capturado por empresas do sector em si mesmos (por exemplo, apesar do sector de semicondutores ser um dos principais contribuintes para o crescimento da produtividade nos Estados Unidos nestes últimos 15 anos, a sua participação no PIB e do emprego tem actualmente declinado ).

 

[4] Os exemplos incluem o programa Minitel em França, um claro precursosr da Internet e as normas para a Televisão no Brasil. Para mais detalhes sobre este último caso, veja-se New horizons: Multinational company investment in developing economies, McKinsey Global Institute, Outubro 2003, disponível em:

(http://www.mckinsey.com/mgi/reports/pdfs/newhorizons/Consumer.pdf); ver também E. Luzio and S. Greenstein, “Measuring the performance of a protected infant industry: The case of Brazilian micro computers,” Review of Economics and Statistics, 77, 622–33, 1995.

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