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DIÁRIO DE BORDO de 21 de Janeiro de 2012

 

O acordo assinado na concertação social vai sem dúvida ajudar a precipitar a espiral de destruição que pesa sobre a economia portuguesa. Vão ser facilitados os despedimentos, por muito que os representantes das associações patronais afirmem o contrário. Também muitas empresas vão encerrar, até porque, por um lado, vão conseguir livrar-se mais facilmente dos seus compromissos, e por outro, o crédito está cada vez mais difícil. O governo sabe-o, e, num dia, sugere aos portugueses que emigrem, no outro anda pelo estrangeiro promovendo exportações, mas sobretudo procurando apoios e investimentos extraordinários. O encontro de Passos Coelho com Angela Merkel e os primeiros ministros da Suécia e da Áustria visa claramente um pedido de auxílio.  Dir-se-á: era de esperar. E também se dirá: fazem o que podem.

 

Tem de se acrescentar: para além de que muito do que está a acontecer podia ter sido evitado, mais coisas estão a tornar-se evidentes. Em primeiro lugar, lideranças políticas à maneira de Alberto João Jardim vão proliferar. Líderes hábeis na demagogia, com controle forte sobre a informação, e com uma clientela pouco escrupulosa, têm mais capacidade de sobreviver numa sociedade em regressão. EmPortugalhá vários candidatos. A propósito, lembre-se de que Paulo Portas, quando no Independente, qualificava o regime vigente na Madeira, uma ditadura sufragada. Hoje não o repetirá, apesar de todas as tentativas de se demarcar, ou de fazer de conta que ali é oposição.

 

Em segundo lugar, também é evidente que, com o naufrágio económico em curso, acompanhado de uma profunda degradação da vida de grande parte da população, muitos portugueses vão estar permeáveis a uma evolução para um regime não democrático. O estudo agora publicitado fala em que pouco mais de 50 % da população ainda aprova a democracia. Quantos serão daqui a dois ou três anos?

 

Para além de nos esforçarmos para inverter as esmagadoras condições sociais e económicas que a oligarquia dominante está a impor ao país, para além de procurarmos caminhos seguros para organizarmos a economia e o país em geral, urge alargar o debate sobre a democracia, e a necessidade desta na procura de caminhos melhores. A reflexão sobre os obstáculos que hoje defrontamos ajudará este debate, e tornará mais claro que não é o sistema democrático, mas sim as suas limitações que estão na raiz da crise actual.

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