Diário de bordo de 16 de Novembro de 2011

Como resultado da contracção da economia portuguesa em cerca de 3 a 4% nos últimos três meses de 2011 relativamente ao período homólogo de 2010, o próximo Natal vai ser o mais pobre das últimas três décadas. O cortes nos subsídios vão agravar esta situação. Há um outro dado, este surpreendente: na UE, as famílias portuguesas são das que mais gastam no Natal (gastavam…). Mais do que as famílias alemãs, por exemplo. Se não fosse os motivos que provocam esta redução do consumo e os problemas que vão causar, sabendo-se que o consumo familiar representa 60% da riqueza da economia nacional – pequenos negócios que vão fechar, aumento de desemprego… não seria, a nosso ver, mau que, na época natalícia, o consumismo desenfreado que costuma atacar grande parte do nosso povo, fosse drasticamente moderado.

 

O Natal é uma época de corrida às grandes superfícies, de estereotipadas musiquinhas americanas, de uma falsa caridade, de uma indiferença que se traveste de solidária ajuda aos sem-abrigo e aos necessitados em geral – uma tristeza – era bom que essa estupidez colectiva a que chamam “espírito do Natal” e que ataca até as pessoas de maior inteligência, fosse combatida – mas não por este motivo – o de estarmos perante o mais rápido e violento empobrecimento de que há memória. Era bom que o Natal mesquinho e feio que os ianques nos venderam morresse por se compreender que ofende acima de tudo o espírito cristão que os crentes advogam e insulta a sensibilidade de alguns ateus.

 

O governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, declarou que as instituições financeiras têm a obrigação de não induzir o endividamento :“Gostaria de apelar às instituições financeiras para que exerçam uma pedagogia activa, que informem o cidadão de que é fácil obter crédito, mas é difícil reembolsá-lo” (…)“O sobre endividamento começa por ser um drama pessoal, depois transforma-se num drama social, que tem necessariamente repercussões”, inclusivamente para os bancos, que correm o risco de ficar com créditos incobráveis. (…)“Temos de assegurar, do ponto de vista ético, que [os bancários] no balcão encontram o equilíbrio adequado entre o interesse da instituição, que é vender, e do cidadão, que é manter-se solvente. O interesse da instituição, a prazo, também é que o cidadão se mantenha solvente

 

Tudo isto é óbvio. Porém, às gentes da banca isto entra por um ouvido e sai pelo outro. Esta crise, este drama, este pesadelo, constitui um caldo de onde vão tentar tirar proveito. Os bancos fazem parte do problema e nunca da solução. Todos sabemos isso. O Natal, e as carências que este governo impôs, vai ser bom para que os bancos ganhem bom dinheiro.

 

O “espírito do Natal” vai atacar. Salve-se quem puder.

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