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No divã – Paulo Ferreira da Cunha

 

 

Paulo Ferreira da Cunha  No divã

 

 

 

(Adão Cruz) 

 

 

 

  Uma das colecções mais escondidas que cada um de nós guarda como um anti-tesouro é a dos vexames, desaires, gaffes e humilhações. Ou se entesouram no consciente, ou se escondem no baú do esquecido, varridas para debaixo da carpete do passado.

 

Como desde cedo sempre fiz questão de me exprimir com propriedade e acerto, e nunca tive muita coisa a esconder, acumulei um acervozinho de gaffes. Começava as frases todo lampeiro, sem pensar nas consequências, enrolando-me a meio quando descobria que iria dizer asneira, assim me fenecendo esmorecida frase. Já nada remediaria a inconveniência.

 

Tal é o tipo de sucessos que abominamos revelar : já que, como viu Pessoa, sempre somos grandes heróis no nosso filmezinho pessoal. Mas até por isso faço questão. Confessar é catarse que sem dúvida me revitalizará. Sei que deixarei no lixo da memória uma pele velha de cobra, ganhando assim asas de dragão.

 

De entre tabus inconfessáveis, recordo no sótão da memória sobretudo um. Aqui vo-lo dou, tranquilo, a coberto do duplo escudo da ficção e do pseudónimo.

 

Deveria ter uns cinco anos. Não associo a mim escola, mas baloiço e brinquedo, nenhum livro que não fora de imagens coloridas. Era eu na minha vernaculidade. Tempos idílicos.

 

Passávamos parte das férias na praia. Dois meses grandes, sempre de bóia na mão aventurando-me pelo Atlântico, de que me fizera professo nauta estival. A outra parte, de mais um mês, era bucólica e recolhida, quase outonal, em estância termal desse Norte verde e bovino, à Torga.

 

Tendo todas as propriedades rurais de todos os costados sido miticamente subtraídas por parentes sem escrúpulos em sinistras partilhas, ou desbaratadas pela liberalidade perdulária de tetravós meio tontos, seria apenas nessa segunda fase das férias que eu conheceria ao vivo o trigo e o milho (e o milho rei), e os animais de quinta. Impressionaram-me o roliço porco e o boi de olhos merencórios. Recordo-os como pessoas aprisionadas naqueles corpos estranhos, quase caricaturais. Não vi gatos, e isso me pareceu falta de liberdade.

 

A “aldeia” morava, para mim, nas traseiras de um hotelzinho de província. Ainda hoje não tenho do campo senão esta imagem infantil.

 

Ora, nessa idade do ouro, eu não conhecia nenhum dos pecados originais. Nem o da sabedoria (Deo gratias), nem o outro. E por isso, saltava de colo em colo de meninas e senhoras hospedadas no hotel, dando e recebendo beijos  – castíssimos embora – mas não pouco doces.

 

Esse borboletear não estranhava aparentemente a  ninguém e a mim muito me agradava.

Um dia, decerto por escândalo dos céus ou artes de Belzebu, tudo acabou.

 

Durante uma ou duas semanas, que naturalmente me pareceram de edénico tempo suspenso, eu cortejara uma senhora muito jovem, mas casada, sem qualquer culpa ou pecado. Procurava-a a toda a hora, beijava-a em cada centímetro das faces, afagava-lhe os doirados cabelos, contemplava-lhe, embevecido e sem mal, o azul angélico dos seus olhos. Ela correspondia-me como boa namorada, com sorrisos, com afagos, com beijos, com abraços, e não menos com chocolates e palavras doces que sabiam a rebuçado.

 

Uma manhã fria desse pré-Outono, descendo ao terraço, onde a buscava com sorriso meigo, vejo-a acompanhada de cavalheiro entradote, respeitavelmente calvo, bigodudo, ligeiramente obeso e sem dúvida atarracado, e para mais portador de um sorriso tímido. Era o marido. Sim, um marido assoberbado pelos negócios, que só vinha visitar a esposa, em cura termal, pelos vistos de quinze em quinze dias.

 

Esbanjador…

 

Com a candura das fidelidades institucionais, a jovem loira não deixou de me apresentar o seu legítimo esposo.

 

Entre traído e espantado, só pude enrolar na língua, excessiva, sobrante, uma tirada de mau pagador :

 

“ – Ah, seu marido… É que é… »  – e na reticência engatilhei uma rajada de inspiração:

 

“– É que tem um sobretudo muito folclórico”.

 

Todos riram (sem revelar porquês) da gracinha do menino.

 

Eis o meu trauma de infância. Espero ter ficado curado. Só não sei bem de quê.

 

 

 

 

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